A Difícil Arte Da Convivência
Pastor Natanael Gabriel da Silva
Igreja Batista Em Barão Geraldo – Boletim De 13 De Junho De 2004.
Gostaria de pensar um pouco sobre isto. É que quando se pensa em Igreja, pensa-se logo em suas funções principais, corpo de doutrinas, organização e forma de atingir os seus propósitos. Isto é certo quando se tem em mira a relação da igreja com as suas atribuições e ministério específico. Contudo, entre tantas e tantas coisas, deve-se pensar nela como sendo um centro de convivência. Em outras palavras, uma pessoa já não escolhe uma determinada comunidade por causa de sua confissão, mas mais em função das relações humanas. É claro que existem pessoas que não congregariam em determinados grupos em virtude das diferenças de organização institucional ou até doutrinária. Só que estes, embora não queiramos admitir, são poucos, poucos mesmo.
A igreja é um centro de relações humanas, basicamente. Não há comunidade que sobreviva se não for possível manter uma malha mínima de amizade e companheirismo. Durante muito tempo sonhou-se com uma igreja unitária, como se tudo pudesse ter o mesmo sentido e direção. O novo sistema tem optado por reconhecer os grupos, os interesses pessoais, expectativas próprias. Sabe-se da aproximação de determinados grupos de pessoas, por motivos culturais, econômicos ou sociais. Sabe-se também do prejuízo quando alguém não se descobre em identificação com um determinado grupo. Nesta nova forma de ser igreja os grupos são, não apenas valorizados, mas estimulados ao aparecimento. Tudo isto porque finalmente tem-se reconhecido que a comunidade deve-se cuidar através de mecanismos que vão surgindo e tomando os espaços que antes não lhes pertencia.
Este espaço que não lhes era dado se devia a uma determinada centralização de ação dependente de uma única e específica pessoa, que ditava as regras, mantinha a convivência, estreitava laços e promovia o perdão. A pluralidade não permite mais esta forma de imposição de organização e torna-se necessário um novo aprendizado. Ou seja, estamos aprendendo a ser Igreja numa realidade em que as coisas estão meio “descontroladas”, que, na saudade de alguns, seria uma anomalia descentralizada.
É isto que precisamos aprender: as ambigüidades da convivência. Seria bom se tudo ainda pudesse ser resolvido com uma palavra final sobre um determinado tipo de comportamento, mas isto não acontece mais. Foi-se o tempo quando “a única e especifica pessoa”, da qual tudo dependia, procurava manter tudo em vigilância, e acreditava ter tudo sob controle. Eu sei que esta independência, este descontrole, parece gerar um certo sentimento de orfandade, como se ninguém se preocupasse com ninguém. Fica algo meio parecido com um vazio, uma ausência, um espaço indefinido, alguma coisa que não tem mais quem possa dizer o que devemos fazer, se deste ou daquele modo. Sei também que têm pessoas que dependem disto, e não seria difícil fazer uso deste imaginário, como fazem algumas igrejas, em forma de manipulação. Igrejas como estas não precisam de convivência, porque não há. Não se pode nem dizer que seriam igrejas, pois não há compromisso de “rebanho”, de comunidade ou comunhão. O que há é um grupo de pessoas que transferiram a sua vontade para a vontade de quem os dirige e fazem, como por hipnose, qualquer coisa por ele determinada. Não queremos ser assim, nem perto disto. Queremos que a força centralizadora das nossas relações seja a nossa responsabilidade em convivência. Estou certo de que foi este o propósito de Jesus ao ensinar o amor como marca do discipulado. Este amor é a superação das imperfeições. É o perdão pelo fato do outro não corresponder às expectativas. É o perdão a si próprio, por construir expectativas que não podem jamais ser realizadas. É a tentativa de compreender que todos estamos fazendo o que melhor podemos, mesmo quando se sabe não ser isto totalmente verdadeiro. A verdade necessita estar no amor que tudo sofre. Aquele que desperta a realidade do pertencer e ser pertencido. É saber que o mesmo acontece conosco em relação aos outros, quando não respondemos ao que esperavam, e quase sempre desconhecemos isto. Esta é a realidade. Ferimos, sem saber que ferimos. Magoamos, sem saber que magoamos. Outros não sabem que também sofremos. Se formos tentar resolver tudo, colocando todas as coisas nos seus “devidos lugares”, não haveria tantos lugares para se colocar tantas coisas devidas. O perdão acontece assim meio silencioso, como quem confere no coração, compreendendo ou sem compreender, justificando ou não, achando que isto deveria ter sido assim ou deveria ter sido de outro jeito, embora em muitos casos isto não faça qualquer diferença. Só perdão, sem explicação, porque se pudesse ser explicado não seria perdão, seria desculpa. Perdão que dá jeito, ao que não tem mais jeito. Torna tudo como era antes, como se não tivesse havido. É uma “reinicialização”, que não precisa ser explicada ou justificada. É a abdicação da verdade pessoal, é o despojamento da expectativa ou do conserto. Não se espera que numa outra ocasião algo seja feito diferente, pois o perdão é destituído de expectativas, senão, também, não seria perdão.
Precisamos aprender o que significa amar e perdoar. Na nossa cabeça estas coisas ainda são sentimentos. Amamos alguém quando ela se encaixa em alguma coisa, e de alguma forma proporciona algum benefício. Perdoamos uma pessoa para afastar a tristeza da lembrança, que acaba sempre presente.
Amar e perdoar, regras básicas da arte da convivência, não são emoções que dependem de um certo estado de espírito e vontade. Deveriam ser incontroláveis, como quem não suporta viver sem perdoar ou amar, quase uma impulsão, um desejo forte e prazeroso. Não há relacionamento que sobreviva à ausência do amor e do perdão, dados ou recebidos. Ame e se permita amar, perdoe e se permita perdoar.
A igreja é um centro de relações humanas, basicamente. Não há comunidade que sobreviva se não for possível manter uma malha mínima de amizade e companheirismo. Durante muito tempo sonhou-se com uma igreja unitária, como se tudo pudesse ter o mesmo sentido e direção. O novo sistema tem optado por reconhecer os grupos, os interesses pessoais, expectativas próprias. Sabe-se da aproximação de determinados grupos de pessoas, por motivos culturais, econômicos ou sociais. Sabe-se também do prejuízo quando alguém não se descobre em identificação com um determinado grupo. Nesta nova forma de ser igreja os grupos são, não apenas valorizados, mas estimulados ao aparecimento. Tudo isto porque finalmente tem-se reconhecido que a comunidade deve-se cuidar através de mecanismos que vão surgindo e tomando os espaços que antes não lhes pertencia.
Este espaço que não lhes era dado se devia a uma determinada centralização de ação dependente de uma única e específica pessoa, que ditava as regras, mantinha a convivência, estreitava laços e promovia o perdão. A pluralidade não permite mais esta forma de imposição de organização e torna-se necessário um novo aprendizado. Ou seja, estamos aprendendo a ser Igreja numa realidade em que as coisas estão meio “descontroladas”, que, na saudade de alguns, seria uma anomalia descentralizada.
É isto que precisamos aprender: as ambigüidades da convivência. Seria bom se tudo ainda pudesse ser resolvido com uma palavra final sobre um determinado tipo de comportamento, mas isto não acontece mais. Foi-se o tempo quando “a única e especifica pessoa”, da qual tudo dependia, procurava manter tudo em vigilância, e acreditava ter tudo sob controle. Eu sei que esta independência, este descontrole, parece gerar um certo sentimento de orfandade, como se ninguém se preocupasse com ninguém. Fica algo meio parecido com um vazio, uma ausência, um espaço indefinido, alguma coisa que não tem mais quem possa dizer o que devemos fazer, se deste ou daquele modo. Sei também que têm pessoas que dependem disto, e não seria difícil fazer uso deste imaginário, como fazem algumas igrejas, em forma de manipulação. Igrejas como estas não precisam de convivência, porque não há. Não se pode nem dizer que seriam igrejas, pois não há compromisso de “rebanho”, de comunidade ou comunhão. O que há é um grupo de pessoas que transferiram a sua vontade para a vontade de quem os dirige e fazem, como por hipnose, qualquer coisa por ele determinada. Não queremos ser assim, nem perto disto. Queremos que a força centralizadora das nossas relações seja a nossa responsabilidade em convivência. Estou certo de que foi este o propósito de Jesus ao ensinar o amor como marca do discipulado. Este amor é a superação das imperfeições. É o perdão pelo fato do outro não corresponder às expectativas. É o perdão a si próprio, por construir expectativas que não podem jamais ser realizadas. É a tentativa de compreender que todos estamos fazendo o que melhor podemos, mesmo quando se sabe não ser isto totalmente verdadeiro. A verdade necessita estar no amor que tudo sofre. Aquele que desperta a realidade do pertencer e ser pertencido. É saber que o mesmo acontece conosco em relação aos outros, quando não respondemos ao que esperavam, e quase sempre desconhecemos isto. Esta é a realidade. Ferimos, sem saber que ferimos. Magoamos, sem saber que magoamos. Outros não sabem que também sofremos. Se formos tentar resolver tudo, colocando todas as coisas nos seus “devidos lugares”, não haveria tantos lugares para se colocar tantas coisas devidas. O perdão acontece assim meio silencioso, como quem confere no coração, compreendendo ou sem compreender, justificando ou não, achando que isto deveria ter sido assim ou deveria ter sido de outro jeito, embora em muitos casos isto não faça qualquer diferença. Só perdão, sem explicação, porque se pudesse ser explicado não seria perdão, seria desculpa. Perdão que dá jeito, ao que não tem mais jeito. Torna tudo como era antes, como se não tivesse havido. É uma “reinicialização”, que não precisa ser explicada ou justificada. É a abdicação da verdade pessoal, é o despojamento da expectativa ou do conserto. Não se espera que numa outra ocasião algo seja feito diferente, pois o perdão é destituído de expectativas, senão, também, não seria perdão.
Precisamos aprender o que significa amar e perdoar. Na nossa cabeça estas coisas ainda são sentimentos. Amamos alguém quando ela se encaixa em alguma coisa, e de alguma forma proporciona algum benefício. Perdoamos uma pessoa para afastar a tristeza da lembrança, que acaba sempre presente.
Amar e perdoar, regras básicas da arte da convivência, não são emoções que dependem de um certo estado de espírito e vontade. Deveriam ser incontroláveis, como quem não suporta viver sem perdoar ou amar, quase uma impulsão, um desejo forte e prazeroso. Não há relacionamento que sobreviva à ausência do amor e do perdão, dados ou recebidos. Ame e se permita amar, perdoe e se permita perdoar.
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