A Humanizacao Da Igreja
por Natanael Gabriel da Silva
Publicado No Boletim Da Igreja Batista Em Barão Geraldo – Domingo, 03 De Julho De 2004.
A gente sempre é pego pensando nos tempos quando as coisas eram diferentes. Confesso que estou ficando meio fora de moda. E, engraçado, para não dizer ridículo, a mistura que acontece em minha cabeça, a sempre necessidade de atualização e a sempre necessidade de permanência, é um negócio quase incompreensível.
Não sei se vou explicar direito, se é que isto tenha possível explicação, mas sou do tempo quando não se podia entrar no santuário (era esta a palavra que se utilizava) de qualquer jeito. Este jeito era com qualquer roupa, comendo coisa qualquer e falando qualquer assunto. Naquele tempo, uma igreja batista, era uma Igreja Batista. Ou seja, os cultos tinham a mesma ordem, embora cada uma pudesse organizá-lo como desejasse. As lições da Escola Bíblica eram as mesmas, como também os hinos. Até os textos bíblicos lidos eram, quase sempre, os mesmos. Lia-se a mesma tradução da Bíblia, e lia-se muita Bíblia. Lia-se em casa, discutia-se Bíblia pelos corredores. Discutiam-se doutrinas que jamais seriam respondidas adequadamente. A questão não era achar que haveria uma resposta, mas o conversar sobre o texto era o esgotamento do sentido. Aos domingos pelas manhãs, os sermões eram, com raras exceções, doutrinários; os vespertinos, evangelísticos. Foi uma época com muitos sonhos.
Não estávamos sozinhos. Fazíamos parte de uma comunidade que queria uma liberdade, que ninguém sabia direito o que seria isto. Poderia ser uma ânsia social, econômica e política, como acabou sendo na América Latina, dominada pelos golpes militares. Poderia ser a liberdade de não morrer em uma guerra sem sentido, como os movimentos dos jovens nos EUA, contra a famigerada Guerra do Vietnã. Acreditava-se na possibilidade de se fazer um mundo melhor. Os movimentos musicais populares que estouraram nos anos 60 davam a idéia de que a liberdade estaria no coletivo da arte. Eram movimentos de libertação de padrões "cristãos". Estes padrões (e estavam certos nisto) haviam levado a humanidade a duas grandes guerras, com “direito” a bombas sobre as cidades do oriente. Outras guerras menores foram provocadas, e ninguém agüentava mais isto. Estes movimentos coletivos haviam sido inspirados desde a revolução Russa, a não violência de Gandhi, ou o sucesso da revolução cubana na América Latina. Havia um jeito de se mudar o mundo; a vida precisava ser humanizada.
Eu sei que tudo isto já e passado. Mesmo com o teatralismo de um Bush hoje no Iraque, só a revolta mundial e a rejeição a esta política externa dos EUA, que vai desde o centro europeu, aos esquimós, já é suficiente para se dizer que os tempos são outros. Outra vez: ninguém agüenta mais isto. A humanização do ser humano parece ser um desejo universal.
A questão foi que todos estes movimentos geraram uma desconfiança nas Instituições, nos discursos oficiais, e quase tudo que cheirava hierarquia, organização ou autoridade, perdeu o sentido. Qualquer discurso tornou-se apenas um discurso. Criou-se uma quase lei universal: quem lidera uma organização, manipula, desinforma, desumaniza, sempre recebe mais do que diz, faz menos do que precisa, e não se esforça tanto para superar a diferença. Esta desconfiança gerou uma outra certa: se a Rússia caiu, e Cuba também; se os ingleses se submeteram à desobediência de uma Índia paupérrima, não haveria sistema que não poderia ser modificado. Nada seria indestrutível. Isto se tornou verdade para sistemas políticos estatais, como para sistemas políticos eclesiais, ou seja, tanto para nações como para as igrejas. Assim assistimos e fomos agentes da nossa liberdade, com um ímpeto mais acentuado em algumas ocasiões, mais revolucionários e reacionários em outras.
Não estou querendo dizer que no tempo quando se lia uma única tradução, ou quando se cantava o mesmo hino, ou lia-se a mesma revista, a situação era melhor. A Igreja era mais rígida, portanto, mais punitiva, mais fiscalizadora, mais institucional. Até hoje ainda se fala das ações para se recuperar patrimônios, movidas contra os carismáticos, e pouco se pensa nas pessoas que se afastaram, foram embora, e nunca mais voltaram. É uma lógica quase natural: estatutos, regimentos, doutrinas declaradas como normas imparciais e impessoais; no final de tudo o patrimônio. Todas estas coisas são estáticas, desumanas, sem vida e parecem sobreviver por si só. É muito simples: estas coisas, estatutos, regimentos e doutrinas imparciais, eram tão impessoais que surgiam antes da igreja como comunidade local. Ou seja, antes dela nascer já se sabia os horários de funcionamento, sua estrutura, divisão funcional, departamentos, comissões, hinos que seriam cantados, textos que seriam lidos e estudos que seriam feitos. Tudo já estava pronto, antes de estar pronto. Em suma, o ser humano deveria se encaixar num sistema, que surgira antes dele.
Ainda se luta muito por este sistema, e quase todas as vezes que se pensa nestas regras rígidas, está-se reafirmando que a forma de se "controlar" uma comunidade ainda é a lei. Só que isto já passou.
Eu iria dizer "Graças a Deus", mas não posso fazer isto. Poderia parecer que o pacote seria um só, e que teria sido boa a "humanização" do santuário, termo que nem se usa mais; ou ainda a "humanização" da doutrina, tendo o prazer substituído a ética; a "humanização" do culto, com o adorador tomando o lugar do adorado; a "humanização" da estrutura funcional, quando se faz o que se gosta, preservando-se de qualquer função que possa causar sofrimento ou aborrecimento. Não importa a responsabilidade; importa o prazer.
Para isto foi necessário humanizar também a doutrina, e coisas aparentemente marcantes numa comunidade, se tornaram relativas. Coisas como "batismo", "volta de Cristo; "ceia do Senhor", e por ai vai. Se não há autoridade, não há autoridade. Sofre o professor na sala-de-aula, os pais em relação aos filhos, e o pastor em relação às ovelhas. Autoridades que possam fazer qualquer controle, rejeitadas só por assim pretenderem; são rejeitadas, quer sejam pessoas, quer sejam as Escrituras. Vai dizer que isto é bom? Claro que não! É ruim, muito ruim, superlativamente péssimo!
Deu para perceber porque a minha cabeça fica confusa? Dá pra voltar ao legalismo, fiscalização e punição? Claro que não! Agora, dá pra agüentar a falta de compromisso, securalização, ausência de persistência e responsabilidade, quando só se faz o que se pode, na hora que se quer? Também não! Você vai sair com aquela de que - Precisamos encontrar um meio termo! Bem, eu nunca soube direito este negócio de meio termo, porque cada um encontra o meio termo no meio de dois termos, começo e fim, quando não se sabe qual o começo, e muito menos qual o fim. No meio destes dois inexatos termos, está um "meio-termo", num ponto, que é tão abstrato e individual que ninguém sabe onde fica, se é que fica em algum lugar.
Daí o fato de ser cada vez mais difícil fazer alguma coisa e tentar "costurar" uma ação pastoral em meio a tantas circunstâncias indefinidas.
É quase um sonho quando verifico que a Igreja está se tornando mais compreensível, amorosa, comunitária e solidária com a tragédia humana. É quase um sonho quando vejo a alegria de se fazer o que se gosta, ou saber que se faz algo por impulso próprio, sem qualquer fiscalização. É quase um sonho tanta liberdade quando não se controla e nem se cobra quem participa nos cultos, que roupa usa, para onde vai depois, e coisas como estas. Esta liberdade é um sonho. Por outro lado, é quase um pesadelo vivenciar tanta ausência de compromisso, tanto relativismo ético, tanta coisa que se faz apenas quando se gosta, participa quando se quer, contribui-se quando sobra, canta-se quando o tipo de música agrada. Pesadelo do consumismo burguês de culto: recebe mais participantes a igreja que oferece melhores serviços; consumidores de espaço, de sermões e até de relacionamentos e companheirismos.
Não sei se o pesadelo é o risco do sonho. Só que seria tão bom se fosse possível agrupar a liberdade com a responsabilidade, a seriedade doutrinária com a humanização, o encanto e sabor do trabalho cristão com a submissão às dores e sofrimentos que este traz, a humanização do espaço e do culto sem o adorador tomar o lugar do adorado; substituir o consumo pela consagração, a autoridade pela submissão, o controle pela dedicação, o senhorio pela servidão, o benefício pela liberalidade. Seria esperar muito?
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