Faculdade Teológica Batista de Campinas

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A Igreja e o Rumo

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A Igreja e o Rumo

por Natanael Gabriel da Silva

Boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, 23 de maio de 2004. 

 

Demorei em escrever sobre isto. Conversamos, dois ou três domingos atrás, um pouco sobre o rumo do mundo. Também não sei se rumo é uma palavra certa, porque a falta de rumo já é um rumo. Isto quer dizer que de uma forma ou outra vamos chegar a algum lugar.

 

Houve um tempo em que se discutiu muito sobre que lugar seria este. Isto não é novo. Devemos esta coisa de planejamento estratégico ao stalinismo e os programas de revitalização da economia norte-americana após a quebra da bolsa de 1929, seguido do programa de recuperação da Europa no pós-guerra. A interpretação parece ser bastante simples: devemos traçar um plano para onde devemos ir, elaborar a forma de como chegar lá, e avaliar constantemente para saber do caminho, se percorrido muito, ou pouco, e se na direção e sentido estão certos.

 

Não vamos ser ingênuos e achar que isto sempre funciona. Algumas empresas, talvez muitas, não vivem sem um planejamento estratégico. Já tenho lido sobre grandes sistemas empresariais que deram certo, porque fazem dar certo. Não é porque tenham a capacidade de visualizar o futuro e traçar estratégias, mas pelo fato de estarem com a economia nas mãos, determinam o querem na vida de muitos países e fazem acontecer o que querem. Os programas de crescimento de Igreja, um pouco mais, um pouco menos, têm este mesmo esquema. Está se tornando quase uma exigência. Algumas igrejas estão exigindo um planejamento estratégico para o pastor candidato ao ministério (você acredita nisso?!). Se o pastor não apresentar um plano consistente, seu nome não é levado em conta para assumir a Igreja.

 

Não quero cansá-lo com isto. Quero pensar sobre a Igreja, a nossa Igreja, e seu planejamento estratégico. Só não posso deixar de dizer que quase tudo, e quando digo quase tudo, é quase tudo mesmo, que economistas, sociólogos e jornalistas prevêem, não acontece. Desculpe caro leitor, mas os estrategistas do sistema vivem sob o impulso do “chutomêtro”: se acontecer isto, deverá ocorrer aquilo; se o país andar por este lado, a economia deverá ter esta direção... Pelo que tenho visto, o resultado não é melhor do que a discussão de esquina ou de mesas de bar. Mas qual a razão de não dar certo, quando tudo parece ser tão lógico: se vamos chegar lá, não basta ir por aqui? O problema é que entram forças de um lado e de outro, que puxam por um canto, esticam pelo meio, dão a volta por cima e debaixo do que estava atrás, e se repartem em duas vias que se abrem para a esquerda e direita, voltando para o centro e sendo amarradas em algum lugar indefinido. Não entendeu? Não é para entender mesmo, porque não faz sentido!

 

Houve um tempo, e agora estamos voltando um pouco mais, quando um grupo religioso resolver traçar um plano infalível de comportamento e moralidade, de tal maneira que todos saberiam exatamente o que deveria ser feito. Definir papéis e regras, não é isto que funciona? Se todo o mundo praticasse o que está definido como forma de conduta não seria o céu? Logo surgiu um problema, pois havia a necessidade de levantar um outro grupo, comissão, juizado, grupo de trabalho, sei lá que nome poderia ser dado, para poder controlar e ver quem não estava cumprindo o que deveria ser feito. Isto parece lógico: se as regras são definidas, e não são seguidas, polícia neles! Bem, para ter um sistema de “polícia”, tem que haver uma punição, pois afinal de que adiantam  as regras definidas, se não há quem fiscalize e que adianta fiscalizar, se não tem quem possa punir? Teria dado certo se não fosse algo amarrado num lugar incerto e ficar sem sentido. Então o que restava fazer era regulamentar as coisas menores, e outras menores que do que aquelas, e outras menores ainda, de tal forma que tudo poderia ser pensado, esperado e previsto; organizado e direcionado para o “rumo” que não poderia dar errado. Só que deu errado, e foi muito.

 

Aí um dia alguém, como quem não queria nada, apareceu e perguntou: É certo, num sábado, fazer o bem, ou fazer o mal [a uma  pessoa], salvar a vida dela ou matá-la? (Marcos 3:4). O sentido poderia ser assim: O que vocês acham? Não acham nada?Não! Não me digam que as regras tão bem articuladas que você fizeram, prevendo o rumo, não diz nada sobre a vida? Só fala de morte? É? Falam de apedrejamento? E a vida, onde está? O que fizeram com ela? E a vida não estava ali.

 

Jesus estava fora do “rumo”. “Rumo” deles, bem entendido. É claro que eles não entenderam nada, pois a única coisa que viam à frente era o “rumo”, que não considerava a vida. Acho que esqueceram algo importante.

 

Creio que existem rumos que privilegiam o engessamento, todo mundo fiscalizando todo mundo, punição aqui e outra acolá. Todos sabendo exatamente o que devem fazer, e que, portanto, não fazem mais do que devem, porque só fazem o que deveria ser feito, e se protegem atrás das regras. Jesus disse que estes seriam inúteis. Não vamos entrar neste assunto. Outros rumos dão o privilégio à vida. Permitem fazer mais do deveria ser feito, como a viúva que entregou tudo o que tinha. Ela não precisava, mas fez. Fez não porque havia regras, mas porque elas eram menores do que o seu coração e o desejo de servir. As regras eram pequenas demais para ela. Quem precisa delas, fica pequeno do mesmo jeito. Posso não estar certo, e talvez não esteja mesmo, mas Jesus, quem sabe, desejasse ensinar que a vida não pode ser prevista e ainda desafia qualquer sistema; perde-se no emaranhado e sai do outro lado como se não tivesse passado por lado nenhum. Se alguém perguntar, poderá dizer: é a vida e a vida é o nosso rumo.

 

Bem, se a vida é o nosso rumo, então não estamos sem “rumo” (Ufa! que bom!). Pode não ser um “rumo” tão bem assim definido, mas é um “rumo”.Este rumo, que não é rumo, e esta vida, que é o limite, fala do amor da gente não criticar o que falta (as regras fazem isto!) mas alegrar-se com o que foi feito. Faz a gente ser inocente e achar que todos estamos fazendo o máximo que podemos fazer! Pode não ser verdade, mas é o “rumo”, é a vida; é o nó que se abre em duas pontas e dá a volta pelo retorno e sobe retorcido para sair de um “lado” que não se espera. Não precisa entender, é a vida, só isto. Alguém fez pouco? O que é “pouco”? Não faz mal, ele(a) é a bênção, porque ele(a) é a vida. Preciosa vida, que foi o rumo e o sentido da própria vida de Jesus.

 

Às vezes fico pensando que as Igrejas estão se transformando em empresas de produção. Tudo é muito certinho, previsível, planejado, programado, etc. Não sei se quando a coisa acontece, como algo muito bom, se há o êxtase da fé, da pergunta do “quem fez isto?” A insegurança de quem caminha não tem traçado, mas vai subindo as encostas pelos vales, e de repente, o Pastor que está à frente diz: chegamos! Abrem-se os caminhos e os pastos verdes queimam os olhos com a sua beleza. É a vida!

 

 

 

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