Admiração
Pr. Natanael Gabriel da Silva
Igreja Batista Em Barão Geraldo – Boletim De 15 De Fevereiro De 2004.
Vamos mudar de assunto, até por uma questão de necessidade profissional. Vamos conversar sobre a questão da admiração. Não se preocupe, não irei buscar as origens da palavra e sua relação com termos afins. Só não resisto à análise: prefixo “ad” , em direção à, em aproximação e “mirar”, observar, ver com atenção. Ou seja, ter a atenção em algo ou alguém, cujo ato só consegue ver o que está sendo visto e exclui qualquer outra imagem ou impressão. Isto pode ser aplicado a obras de arte, a uma música, notícia (com qualquer conteúdo), imagens, diversidade e, obviamente, pessoas.
Pessoas são tão comuns quanto prédios e carros pelas ruas. Passamos por elas, mas não as vemos. Algumas chamam a atenção, por causa disto ou daquilo. Num dado momento da vida e por diversas razões, a admiração recai sobre uma pessoa singular. Se também por acaso esta pessoa possuir outros elementos singulares, que não foram vistos numa primeira vez, mas que demonstram uma atenção especial, é possível que surja o sentimento de posse, ou a vontade da conquista.
A vida conjugal começa com a admiração. Como a admiração é um ato que necessita de correspondência e verificação, nem sempre ela se completa. Nem sempre corresponde ao que mostrava ser. O período do namoro serve para que esta admiração seja aprofundada. Num momento ou outro poderá ser transformada, migrar para outras qualidades. Podem se tornar mais fortes, fracas ou até mesmo desaparecer. E é aqui que começamos a conversar.
Não há relacionamento conjugal que resista à ausência de admiração. É claro que esta pode estar associada a questões muito passageiras, como a beleza física, não impermeável ao tempo. Por outro lado, e às vezes, há um descuido e o que já não era foco de admiração pode se transformar num problema conjugal. Entretanto será apenas um problema e possivelmente não se transformará num drama que culminará na separação. Isto porque se a admiração estiver centrada em outro foco, esta ainda será a causa do bem-estar conjugal. Qualquer justificativa que aponte este ou aquele motivo para a tragédia conjugal, é bem provável e até inconsciente, que haja uma ausência de encanto, falta do fascionoso e do tremendo (só para citar R. Otto). É o: Esta sim! – condição de espanto, atenção, vislumbre, visualização que não conseguiu ver outra coisa; completude, o que faltava, o que faz bem, o que deve ser admirado. Foi Adão que disse isto, e é bem provável que nem ele sabia direito o que significava. Também não será possível saber o que fora que lhe chamara tanto a atenção ou espanto. Quem sabe o todo, quem sabe o tudo, e nem ficou menor quando Eva decidiu conversar com serpentes, até porque ele mesmo pareceu ter gostado de ter sido “enganado”.
A admiração, conquanto seja um ato instantâneo, também não é permanente, e necessita ser lembrada. É preciso que seja redescoberta e compreendida como o fator inicial que deu sentido à relação. Também é claro que se a motivação para o compromisso se deu por outra razão, que não esta, é provável que não haja uma admiração a ser recuperada, mas sim uma que precisa ser “construída”. O problema é que “construir uma admiração”, por mais racional que seja, será sempre insuficiente. Justamente por ser primeiramente racional. A admiração é um ato sobrenatural do sentimento, que vê primeiro e pensa depois (às vezes nunca pensa). Aquelas frases típicas diante de uma separação: - Como aconteceu? Ele e ela são pessoas tão boas! Ela é isto, ele aquilo... que coisa! O problema é que talvez, quem esteja dizendo isto, tenha mais admiração pelas qualidades de um ou outro do que eles mesmos entre si.
O exercício de recordar (passar de novo pelo coração) o espanto, a admiração, é um bom caminho para a redescoberta de um casamento feliz. Quando não se admira mais, estas cedem lugar às críticas, avaliações negativas, tentativa de fazer com que o outro retorne a um ponto de onde saiu, ou que nunca tenha estado, fruto de uma admiração que se mostrou errada. Só que isto é uma outra história.
| < Anterior | Próximo > |
|---|









