Faculdade Teológica Batista de Campinas

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Cadeiras Vazias

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Cadeiras Vazias

Pastor Natanael Gabriel da Silva

Igreja Batista Em Barão Geraldo – Boletim Dominical – 30 De Novembro De 2003. 

 

Tem coisa que é pra rir. Na minha primeira semana de ministério, quando nem bem sabia direito o que seria ser pastor, logo no dia seguinte da posse, um domingo pela manhã, fui dar uma olhada nas classes da EBD. Na primeira sala que entrei, havia gente em pé, mesmo havendo espaço para se colocar outras cadeiras. Conclusão: faltavam cadeiras. Entrei numa segunda sala, havia poucas pessoas, espaços vazios e cadeiras desocupadas. Decisão imediata: transferência de cadeiras para as salas que tinham falta. Qualquer pessoa faria isto. Qualquer pessoa que não conhecida a história trágica do “conflito de cadeiras”.  Pedi ajuda para fazer o rápido transporte de cadeiras. Não fui atendido sem resistência: - Pastor, não pode fazer isto! Esta cadeira é do irmão fulano, aquela do sicrano, aquela outra do beltrano... e assim por diante. Outra pergunta, também inocente de quem desconhece tanto o “conflito de cadeiras” quanto as razões que lhe deram causa: Como você sabe quem é o dono, ou a dona da cadeira? Resposta idiota para uma pergunta idiota: Está escrito embaixo! É só virar, assim ó... Sabe que é, cada um comprou a sua própria cadeira, e quando esta pessoa não vem, a cadeira não pode ser usada por outra pessoa.

 

Minha primeira e grande missão, na primeira e longa semana de ministério foi de misturar cadeiras, comprar outras cinqüenta ou cem (não lembro mais), misturar tudo e fazer perder a propriedade particular num mar de tantas cadeiras sem dono e que os donos fossemos todos, sem ser ninguém.

 

Agora, tem coisa que é para chorar.  Quando deixei o ministério de uma outra Igreja, um dos líderes mais ativos não conseguiu se enquadrar com o sistema do outro pastor. Acho que o sucessor teve a coragem de fazer algumas coisas que eu não tive. O fato é que este irmão se afastou. Ficou fora um tempo, envolveu-se com a política, intensificou a sua luta sindical e literalmente sumiu da Igreja. Um dia, um dia, ele achou que deveria voltar. Fora usado como “laranja” tanto na política quanto no sindicato, e achou por bem retornar às suas atividades na Igreja, e querer ocupar uma cadeira que já não estava vazia, havia sido misturada, já não tinha o nome aqui embaixo, é só virar ó... A história pode terminar aqui. Não é preciso dizer que ele voltou tentando sentar na primeira cadeira que aparecesse, arrumou uma questão aqui, outra ali. Não demorou para aparecer um grupo que afirmavam que ele fizera a cadeira com tanto carinho, com uma madeira que viera transportada por rios desde o norte, nos tempos em que não havia estradas e que aquela fora-lhe dada por direito eterno, e que este direito antecipava a qualquer outro em qualquer situação. É claro que nunca ninguém disse isto, nem ficou claro que a confusão gerada era por causa de cadeiras vazias, puseram a culpa na forma como a comunidade era administrada, na forma como se realizavam os cultos, nos relatórios financeiros duvidosos, nos projetos que não poderiam dar certo, primeiro porque eram idéias do “outro” e depois que não dariam certo porque eles fariam não dar certo. Ninguém viu, ou se viu, não disse, que por trás daquele emaranhado de “nós cegos” e cabeleira retorcida pelo vento, estava uma história de cadeiras vazias, tanto da escolha dominical, quanto de cargos e funções que não poderiam ser ocupadas por outras pessoas.

 

Se há coisa para rir, ou para chorar, também tem coisa para pensar. O ser humano é assim, você é assim e eu sou assim. As nossas cadeiras ficam virtualmente ocupadas por nós pelo resto da vida. Quando alguém fala do meu primeiro ministério, é como se ele continuasse sendo meu ministério, é como se virtualmente eu estivesse naquele púlpito, às vezes sentado naquela cadeira estofada de azul entre dois suportes com três grandes samambaias “de metro” que chegavam até ao chão. Ainda falo das ovelhas como se fossem minhas, dou-lhes conselhos como se tivesse o direito de fazê-lo (veja que vergonha ética!). São como filhos, gente que batizei, ensinei e ajudei.  A gente se nega a sair da cadeira que não é mais nossa, deixamos os fantasmas causando uma sombra, um olhar escondido sobre o outro, e se fosse possível, ou se não houvesse outra opção, faríamos de tudo, qualquer coisa mesmo, para ocupar um lugar que não é mais nosso e desocupá-lo do intruso que lá se sentou, e que não sabe de nada do que está fazendo, não sabe como era antes da gente chegar, que não dá o devido valor para quem sofreu tanto e ele não sabe. Coisas da fantasia de alguém que partiu e esqueceu de levar-se consigo, ou que continua sentado quando já partiu e esqueceu de ir embora.

 

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