Faculdade Teológica Batista de Campinas

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Fácil Ou Difícil? Eis A Questão!

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Fácil Ou Difícil? Eis A Questão!



Pastor Natanael Gabriel Da Silva
Igreja Batista Em Barão Geraldo – Boletim Dominical – 09/11/2003

 

Também concordo que às vezes tenho as minhas crises entre o que é fácil ou difícil na compreensão das Escrituras. Alguém já disse que o teólogo primeiro complica e depois explica. O problema é que tem coisa que parece simples, mas não é. Aparentemente seria apenas seguir uma trilha de um escrito, compreender o que denotam as palavras, interpretá-las, contextualizá-las e fazer a sua aplicação à vida. Parece fácil. Por exemplo, parece simples a gente entender: “Bem-aventurados os limpos de coração porque eles verão a Deus”.  Limpo de coração é estar livre do pecado, ver a Deus significa experimentar profundamente um relacionamento perfeito com o Senhor. Porém fica mais bonito, talvez polido, quem sabe mais profundo se a gente disser que Jesus estava falando do desafio de duas coisas que eram consideradas impossíveis por aqueles que viviam naquela época: a) ser limpo de coração; b) ver a Deus. Se as pessoas da época achavam que isto era de fato uma impossibilidade, isto torna a “bem-aventurança” um extremo, um absurdo, um exagero de alegria. Ou seja, a força do texto não estaria no estar limpo de coração (o que é uma verdade), nem no ver a Deus (o que também é verdadeiro), mas na alegria absurda de se conseguir fazer as duas coisas, pois seria a superação da impossível limpeza somada à impossibilidade de se ver a Deus e continuar vivo (lembra de Isaías, que pensou que ia morrer porque viu a Deus?).

 

A questão é que o que era fácil, já ficou difícil. Era mais fácil pensar na limpeza do coração e de estar da presença de Deus como experiência da vida. Isto torna o texto direto. É muito difícil compreender esta situação de ter que estudar sobre o que as pessoas pensavam naquele tempo e, aparentemente, mudar o texto e seu sentido. Tira a graça. Pior que isto, dá uma insegurança porque, se você não conhece direito o que as pessoas pensavam à época, quase fica desautorizado a estudar a Bíblia. Afinal, o que você está lendo é o que significa? Será que é preciso dar tanta volta para se compreender algo que parecia fácil?

 

Vou dar um outro exemplo. Veja o Salmo 51:12 – Davi dizendo: Torna a dar-me a alegria da tua salvação. Neste texto você pode pensar assim: salvação significa a vida eterna. Davi confessa que tinha a salvação, mas que perdera a alegria por causa do pecado. Neste caso, o pecado tira a alegria da vida eterna, que é a salvação.

 

O texto parece simples, e não está errado interpretá-lo assim. O Novo Testamento está coalhado  de demonstração de que o pecado gera tristeza. Agora deixa complicar um pouco, se me permite. Na monarquia, a unção do Espírito Santo era fundamental para que o rei tivesse autoridade. Isto acontecia na Pérsia, Egito, Assíria, e, é claro, em Israel. Os súditos se submetiam porque o rei tinha uma relação com o divino. Se isto for verdade (e a história o comprova, inclusive na unção de Davi como rei), então a preocupação de Davi com a presença do Espírito não seria no sentido de salvação eterna, como temos no Novo Testamento. Sem o Espírito, Davi não poderia ser rei. Neste caso, salvação não teria também o sentido de salvação eterna, como no Novo, mas estaria associada à condição de seu reino. Isto quer dizer que o pecado de Davi não era apenas uma questão relacionada à eternidade, mas à credibilidade de exercer a sua função como o “ungido de Deus”. Por esta razão ele quer um “coração puro” e um “espírito reto” (v. 10), porque só um rei assim poderia ser obedecido e teria condições de julgar a causa do povo com retidão (v. 10). Por outro lado, ter “a alegria da salvação” (v. 12), ou seja, ser livrado daquela situação em que se achava,  seria necessário para que o Senhor o sustentasse pronto a obedecer, para liderar o povo (v. 12).

 

Veja só que coisa! O que parece simples, fica complicado. O que parecia uma coisa, pode significar outra; o que estava claro, ficou obscuro. É claro que eu sei que você não gosta disto, até porque pode querer mudar algo que você pensou que era assim desde há muito tempo. Isto é o chato da questão. Você pode até achar que o texto perde a graça, ou até que perde a Inspiração de Deus.  É, eu sei que é uma crise.

 

Hoje à noite deveremos estudar (não sei ainda) o Salmo 14. A expressão “Deus não existe”, ou, conforme a tradução “Não há Deus”, deve ser lida pela ótica do ateu, que não acredita em nada, ou será que o texto quer dizer outra coisa? Seria possível falar em ateísmo na época em que o Salmo foi escrito? Bem o que parece simples, parece que pode não ser, e do que já se tinha uma interpretação parece que tem que ser revisitado. Não leia ‘revisado’, mas ‘revisitado’. É olhar outra vez o texto como quem, numa primeira passagem, esqueceu de ver os detalhes que estavam no canto, no teto, ou até mesmo debaixo do tapete. Fácil ou difícil - eis a questão!

 

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