Faculdade Teológica Batista de Campinas

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Igreja e Identidade

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Igreja e Identidade

 

Pastor Natanael Gabriel da Silva

Boletim da Igreja Batista em Barão Geraldo, 06 de junho de 2004 – aniversário da Igreja

 

Chegamos a mais um aniversário. É sempre tempo de se pensar sobre a Igreja e sua natureza.

 

Foi há pouco tempo, numa Assembléia Convencional do nosso Estado, quando um dos preletores disse algo mais ou menos assim: "os presbiterianos reclamam da falta de identidade, os “assembleianos” também, e nós, batistas, achamos que somos só  nós estamos com crise de identidade".  Sobre este tema fiquei pensando na Igreja, sua importância e razão de ser. Acho que vivemos uma crise sobre o sentido de ser Igreja, poderíamos dizer de que se trata de uma crise eclesiológica.

 

Talvez eu esteja sendo ingênuo. A Igreja sempre esteve em crise, pois vive e sobrevive de uma relação dinâmica entre a mensagem de Deus e a forma de se expressar num mundo em mudanças. Não adianta pensar que um dia a sociedade vai parar, à espera de que teólogos e filósofos, possam dizer o que é o ser humano, o que é a sociedade, como se fosse uma fotografia. Até mesmo a iconografia, apesar do seu aparente modo estático de ser, tem servido às releituras, como um texto vivo. A leitura será sempre feita numa sociedade em movimento, com uma igreja em movimento, através de um ser humano em movimento.

 

A questão a ser colocada não é a da angústia do mundo, pelo fato deste não parar para ser lido, mas é justamente a questão da Igreja em não se permitir a uma teologia em mudança. Nunca conseguimos fazer isto, e quando foi "conseguido" foi um verdadeiro desastre. Não pretendo esgotar a sua paciência em ler sobre as tantas e tantas interpretações sobre a teologia e a Igreja. Já teve de tudo, desde a teologia que apontava o afastamento do mundo, criando a vida monástica, como teologias que afirmavam a morte de Deus, por não ser acessível à razão. Houve um tempo quando se achou possível tornar a Igreja uma libertadora social. No nosso sistema, sempre se pensou que a Igreja tinha um produto pronto, um pacote que necessitaria ser "adquirido" por inteiro. Mais recentemente os modelos de Igreja afirmam que não temos "pacote" algum, e que para "vender" o produto deve-se negociar com a sociedade. São feitas concessões, tantas quantas necessárias. Em nome de uma "atualização" no Espírito, a medida de uma Igreja passa a ser o número de pessoas agregadas. Também faz pouco tempo que alguém disse que uma Igreja sadia, precisa crescer. O crescimento de Igreja é objeto de muita pesquisa. Procura-se saber qual ou quais "doenças" impedem uma Igreja de aumentar o seu rol de membros. Não faltaram as "receitas" de cura. Neste ponto já é possível dizer que a crise de identidade, é entendida como uma crise do crescimento. Ou seja, precisamos saltar do modelo anterior e dialogar mais com a sociedade, oferecendo um produto aceitável, assim teremos mais interessados e certamente um número mais expressivo de agregados.

Creio que esta é uma leitura errada, pois este foco é substancialmente mercadológico, e pessoas não são coisas. No meu modo de entender a crise de identidade, é uma crise de espiritualidade. Isto porque a Igreja é o espaço da espiritualidade. Estou usando este termo para indicar "novidade de vida", "responsabilidade ética", "prática das boas-obras", se pensarmos na ação da Igreja no mundo. Se, por outro lado, desejarmos buscar o sentido desta espiritualidade na pessoa, na sua subjetividade, diríamos que ela é: "relacionamento com Deus", "compromisso com uma vida integral", "paixão pelas coisas do Senhor, seus ensinos, Palavra e convivência com Ele", "devoção e ingenuidade nos relacionamentos, com a prontidão para o perdão", "predisposição para ter o tempo ocupado pelas coisas do Senhor", "amar o amor","desejo ardente de viver e alegrar-se em Sua presença", e assim por diante. Entretanto, nos vemos como clubes que procuram sócios, como se a Igreja fosse um mercado. Entramos na discussão sobre "custo" e "benefício" - saem à frente quem "oferece mais, por muito menos", e fica cada vez menos, e nem por isto significa "mais". 

 

O que estou querendo dizer é que a crise de identidade, não tem se transformado numa crise de espiritualidade, mas numa crise de métodos que possam fazer a Igreja crescer. Uma Igreja que cresce parece não ter crise de identidade, só porque cresce. É por esta razão que a leitura está errada, distorcida e imprecisa. Não tenho encontrado, por exemplo, estratégias para despertar o “fruto do Espírito” na vida do povo de Deus. O discurso da devoção tem ficado no vazio e a contemplação tem substituído a oração.

 

Gostaria que esta fosse a nossa crise. Um inconformismo com a nossa espiritualidade, uma vontade incontrolável de viver com o Senhor, honrar o seu nome, uma certa ansiedade para encontrar-se com os irmãos e dar-lhes amor e mais amor, uma ingenuidade sem fim, como se fôssemos desprovidos de qualquer interesse e maldade, capaz de suportar e perdoar sem limites. Não, não o perdão consciente, que faz a gente sentir-se mais que o outro e o subordina na miséria da humilhação, mas o perdão como quem não viu, mas viu, não ouviu, mas ouviu, não sentiu, mas sentiu, e não deu conta disto, não deu importância, não se ofendeu, não se irritou, e esqueceu, apenas esqueceu. Esta seria uma boa crise. Teria, talvez, perguntas assim: - Como orar mais? – Como estudar mais? – Como estar mais junto com o Senhor e com o outro? – Como admirar mais o dom que Deus deu a outro? – Como sentir mais afeto? – Como fazer boas ações  sem ser notado? – Como confiar mais no Senhor? – Como me tornar uma  pessoa querida e facilitar que outros me amem? Quais os serviços que só a Igreja, como comunidade, pode oferecer às pessoas sem esperança, e como posso oferecer a minha contribuição?  Bem, por aí vai.

 

Posso estar errado, mas creio que há algo estranho, uma crise estranha, com soluções estranhas. Não posso deixar de pensar em que vivemos, na verdade, uma crise de espiritualidade e devoção.

 

 

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