Faculdade Teológica Batista de Campinas

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Leitura e Contexto

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Leitura e Contexto


 

Pastor Natanael Gabriel da Silva

Igreja Batista Em Barão Geraldo – Boletim De 01 De Fevereiro De 2004.

 

Bombinhas (é este o nome mesmo) é uma pequena cidade esquecida no litoral de Santa Catarina. É lembrada por argentinos, paraguaios, uruguaios e também brasileiros no curto espaço entre o final de dezembro e, geralmente, final de fevereiro. Neste período a cidade é invadida por um bloco, não necessariamente homogêneo, de consumidores do mar e praia. Vende-se de tudo e compra-se de tudo. É muita porcaria: lembrancinhas feitas em bonés, camisetas, sapos de plásticos do tamanho de uma mesa que só se usa uma vez como bóia (tem também crocodilos, golfinhos, enormes baleias, etc – depende do gosto), pranchas  e tudo o que pode indicar inutilidade e arrependimento. Tudo cheira ao improviso. São pizzas vendidas nos restaurantes feitas com massa comprada em supermercados, restaurantes de verão, shoppings de verão, lojas de verão, médicos de verão, pessoas de verão, vendedores de bugigangas nas praias. Tudo passa e acaba em fevereiro.

 

Lá reside uma pessoa querida. Ela é como tantos outros moradores locais que se sentem invadidos pela nuvem (enxame, bando, como queiram) de pessoas de outras culturas. Não pactuam dos avanços e moda de praia, cada vez mais ridícula (dos que chegam), mas gostam do que aqueles gastam e dos lucros que proporcionam. Aparentemente guardam tudo o que ganham.

 

Quem amamos, chegou por lá no tempo quando não havia estradas. Tomou posse, com o marido (ou comprou por um preço irrisório, o que duvido), de uma área à beira do mar que vale alguns milhões, coisa que para ela não tem tanta importância. Valem mais as árvores e hibiscos espalhados sem paisagismo pelo terreno. Conversa sempre conosco sobre igreja, mais precisamente sobre pastores. É evangélica e parece concordar pouco com qualquer pastor. Ora é uma coisa, ora outra. No início, quando lá chegamos há dez anos, bisbilhotou sobre este negócio de pastor tirar férias, tomar banho de mar e ainda estar acompanhado da esposa. Foi até um limite, afinal, ali somos “clientes”. Neste janeiro mencionou a razão pela qual o pastor atual (todo ano é um diferente) não poderia continuar na liderança da igreja: estava fazendo cooper todos os dias na praia. - Mas Graças a Deus, Ele ouviu a minha oração – disse. – O pastor já disse que vai embora! – afirmou. E continuou: - Quando este pastor veio para cá, o outro que havia saído disse para ele: “Cuidado com a oração da dona Idalina – é uma oração forte”.

 

Não gostaria que você fizesse um pré-julgamento disto. O assunto é complexo e passa pela relação do que chamamos de leitura e contexto. Veja bem, eu estou dando a você uma notícia a respeito de uma cidade, recortando um fato e tentando comunicar este fato a você que pertence a uma outra cultura. Talvez você nunca tenha estado lá, e se esteve, bem provavelmente tenha sido apenas um consumidor (como eu) de verão. A sua tendência será avaliar o comportamento dela pelos valores que você possui numa cidade como a nossa. Além disto, no caso dela, pesa uma visão de mundo muito particular, em razão da idade e seus padrões de vida terem sido registrados numa época quando não éramos nascidos. Neste caso, as expectativas sociais de uma pessoa, quando transportadas para uma leitura numa outra realidade, podem sofrer uma injusta avaliação.

 

É preciso saber distinguir determinados fatores para que se possa entender de gente. Leituras e interpretações sobre notícias ou fatos que nos chegam não podem ser avaliadas sem que se leve em consideração uma pitada de visão sobre o universo que forma o mundo do outro. Neste caso, não estou falando a respeito de outras culturas ou povos. Estou pensando nos universos que nos separam. Somos diferentes, herdamos um mundo que muitas vezes (para não dizer sempre) ficou preso num quadro da história. Este negócio de acompanhar as mudanças do mundo é uma busca que, dentre poucos resultados positivos, via de regra será sempre infrutífera. Você e eu ficamos presos nos corredores de uma época e enxergamos as mudanças do mundo por uma janela. Vivemos como se estivéssemos pelo lado de fora, quando estamos de fato ainda do lado de dentro. Alguns têm a felicidade de ter uma janela com vidros mais transparentes, outros sequer têm janelas. Todos nos encontramos num espaço comum que é a vida, mais especificamente nos nossos relacionamentos com amigos, família e igreja. Quase sempre não percebemos que nestes encontros estamos nos vendo através de cômodos diferentes e pensamos que estamos todos no mesmo espaço. Tudo o que vemos são notícias. É o recorte de uma parte da vida do outro que fazemos como leitura a partir do nosso mundo.

 

Antes de avaliar isto ou aquilo, vale a pena pensar sobre o mundo que nos separa. Muitas vezes somos mais estranhos do que gostaríamos de ser, e falamos de coisas muito diferentes uns com os outros, quando pensamos que são as mesmas. - Se estivesse no lugar dele (dela) não faria isto. É verdade. É porque você não está mesmo no lugar de ninguém, e talvez nem mesmo no seu onde pensa que está. Ou seja, não é suficiente fazer um pré-julgamento de uma situação de uma certa pessoa que vive e sobrevive num lugar, e porque não dizer, de outra época, e querer impor soluções e respostas a perguntas que não foram suscitadas. Somos diferentes, com recortes e histórias muito diferentes, com expectativas e leitura de mundo também diferentes. A convivência tem que ser pautada pela humildade, paciência e amor nos relacionamentos, que, como canja de galinha, não faz mal para ninguém.

 

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