Faculdade Teológica Batista de Campinas

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Mercado Inflacionado

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Mercado Inflacionado


 
Pastor Natanael Gabriel Da Silva
Igreja Batista Em Barão Geraldo – Boletim Dominical – 16/11/2003

 

Não estou dizendo de economia. Estou dizendo de religião e Igrejas. Uma vez alguém me disse que a visão que eu tinha de Igreja era porque eu não estava no mercado. Ele estava certo quanto ao mercado, mas errado quanto à mudança de doutrina só para entrar no jogo do “quem ganha mais”.

 

Não quero aqui criar um saudosismo, como quem tem saudade da lamparina. Só que não posso deixar de ver o quanto de desencaixe temos com o atual sistema de vida.  Nunca se pensou que um dia alguém deixaria de dar importância para o estudo sério da Bíblia, para se preocupar apenas com o que melhor lhe agrada. A estética e o visual vão substituindo pouco a pouco a reflexão, o pensar, o conhecer, o querer saber mais. Se você observar a ausência de leitura bíblica pela falta de curiosidade (curiosidade mesmo, espírito bisbilhoteiro da busca da melhor interpretação do texto) sobre a narrativa bíblica, verá que o que está por traz disto é o não querer pensar, descobrir, imaginar, descortinar o mundo do sagrado como quem passeia por entre trilhas inóspitas e escorregadias, eclodindo no paraíso. Não se sonha com o texto e não se faz a imagem dos fatos que a Bíblia narra.

 

O fascínio do texto, pelo qual se conhece, cedeu lugar à experiência. Experimentar é fácil, não precisa pensar, não precisa refletir, não precisa sequer caminhar pelas vielas da Bíblia. Experimentar é apenas experimentar. Não há problema de não haver uma base. Mesmo que o pregador diga algo que pareça estar meio fora do texto, o que vale não é buscar e conhecer, mas apenas experimentar. Não dá trabalho, não exige tempo.  E onde tem gente, junta mais gente. Não se pensa: - qual o lugar em que eu serei mais útil para o Reino de Deus? Pensa-se: qual o lugar que será mais útil para eu me sentir bem? Por vezes, justifica-se com a educação religiosa aos filhos: - qual o lugar que oferecerá uma melhor educação religiosa para os meus filhos? E lá se vai mais um, mais uns, mais outros, para ficarem sentados nos bancos de grandes igrejas contemplando cultos, se sentindo bem, tendo experiências e por aí vai...

 

Eu gostaria que você pensasse diferente. Gostaria mesmo que você amasse a Igreja e não a trocasse por nada. Não importa se no outro lugar tem coisa, conjuntos, músicas, pregador melhor ou gente mais bonita. A questão não é esta. A questão é compromisso e paixão. É saber onde Deus te colocou para ser bênção. A questão não seria somar experiências sobre experiências como se a vida cristã se resumisse nisto. Gostaria que a tônica deste amor fosse o vínculo que se tem com a seriedade das Escrituras, o desejo de fazer do nosso espaço, o espaço nosso de serviço e expansão do Reino de Deus.

 

Gostaria que você pensasse na sua igreja, como sua igreja. Não sua como quem tem posse, mas sua como quem tem vínculo, compromisso, desejo de fazer parte. É como o casamento que encerra o desejo da busca. Não se pensa no depois, pensa-se que será para sempre. Não se busca algo que esteja faltando, como se a outra comunidade pudesse ser perfeita. Logo você vai descobrir que também deixamos saudade e marcas que serão apenas lembranças.

 

Contudo o mercado é ingrato. Cheio de coisas novas, coisas diferentes, atraentes e realmente novas. Você se cansou disto ou daquilo. Então resolve apertar uma tecla, como quem possui um controle, e muda a imagem, o quadro, a moldura e muda até a parede, e se despede dos amigos como quem vai embora por ter sido esquecido.  Bem, pode ser que as coisas mudem para melhor, é como um começar de novo, não ter que perdoar, não ter que enfrentar, não ter que trabalhar para mudar, não necessitar ser instrumento, ser apenas alvo do amor, carinho e compreensão. O que você não sabe é que há alguém por detrás disto que age como se fosse um vendedor. Quer ganhar o cliente, promove as qualidades, faz contraponto com as histórias tristes e críticas que você faz à comunidade antiga, dá até razão para você em quase tudo, há pouca discordância para não assustá-lo. Quando você descobrir que tudo isto era uma maneira de reação de mercado, que as coisas deverão continuar quase do mesmo jeito, talvez pior, quem sabe, aí você comece a pensar se valeu a pena, sente saudade de um tempo que já passou. Vi tanto isto no ministério que já perdi a conta. Tanto de gente que vai, como de gente que vem. As histórias são as mesmas. Houve alguém que um dia disse: - Estou indo para aquela igreja, porque lá fui tratada com uma princesa! A resposta foi (e não foi minha): - Em nossa igreja não há espaço para princesas, apenas para servos. Não foi dito com prepotência, mas numa voz triste por alguém partir sem conhecer direito o que significava servir. A pessoa, bem esta pessoa, foi e assumiu um trono que não era dela.

 

 

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