O Limite Da Pureza
Boletim Da Igreja Batista Em Barão Geraldo, 09 De Maio De 2004 (Dia Das Mães)
É assim que a Bíblia apresenta Maria: uma virgem, prometida (em forma de compromisso irrenunciável) a José. Sua pureza traz a presença de um anjo para dar-lhe a notícia do centro da história: chegara o tempo oportuno do redentor.
Maria não é biografada como mestra de qualquer doutrina ou coisas que pudessem apontar para o sistema religioso da época. Era uma mulher, apenas mulher, dominada numa sociedade por todo um emaranhado cultural que entendia a necessidade da expiação do pecado após o parto. Pode-se explicar Levítico 12:1-8 sob o pensamento da higiene, mas é quase impossível não conferir a inferioridade da mulher pela via religiosa e a necessidade de um perdão por algo que não fizera sozinha. Era necessário o oferecimento do holocausto, como reconhecimento da soberania de Deus e, seguidamente, a oferta de expiação pelo pecado. Se tivesse uma filha, a “purificação” deveria ser mais longa, como se a mulher fosse menos pura. O texto de Levítico não exige a presença do pai. A mulher se apresentava num um ato solitário. Por acaso, ou não, Levítico registra, após a purificação da mulher pelo parto, as leis sobre a praga da lepra. Um espaço pouco confortável para algo tão nobre.
Isto oferece um “pano de fundo” para o pecado necessário. Necessário porque a nação haveria de se multiplicar, recomendação desde o Gênesis, mas pecado, por faltar ou interromper o estado da inocência. Assim o nascimento do redentor, Jesus, deveria receber o selo da pureza desde antes do seu nascimento. Não há registros de que Maria teria se apresentado ao sacerdote para fazer qualquer purificação, porque não havia nada para ser purificado, e sua gratidão registrada por Lucas certamente excedia qualquer necessidade de holocausto.
Se Maria continuou, ou não, virgem após o nascimento de Jesus, é uma questão que só serve para o seu endeusamento, mas que não tem qualquer importância. A pureza de Maria não dependia disto e a finalidade do texto é mostrar a relação do nascimento puro de Jesus, como resultado da vida pura de sua mãe.
Não fosse o evangelista Lucas, um gentio que se preocupava com os marginalizados, nada saberíamos sobre Maria. Mateus, o escritor aos judeus cristãos mostrou mais os dramas do homem, José (coisa de judeu mesmo!), do que a bênção da maternidade. Só isto talvez bastasse para mostrar o estado de opressão que vivia a mulher e a ausência de sua importância. É possível que a referência do amor que se deve aos pais (Êxodo 20:12) talvez não seja tanto em relação ao amor em si, mas em razão da genealogia. Isto explicaria a promessa do prolongamento dos dias na terra ao filho que ama.
Maria seria assim, uma mulher comum, pura no seu sentido mais profundo, vivendo a ingenuidade de quem não conhece a vida, marginalizada e esquecida pelos homens que narraram as primeiras histórias de Jesus. Homens que não sabiam, e não sabem, do sentimento do profundo dar-se de si mesmo para uma outra pessoa, que não é outra pessoa, e que sai de dentro de si, mas continua lá dentro. Enquanto os homens construíam os sistemas religiosos e procuravam interpretá-los minuciosamente, em todos os detalhes, como se isto fosse o mais importante, uma mulher, que continuou esquecida depois, realizava o ato da vida. Outros homens voltariam a fazer a mesma coisa, discutindo como seria possível explicar quem foi Jesus, ou se seria possível o nascimento de um Deus entre os homens e qual seria a natureza deste Deus, blá, blá, blá, blá... Outros, blá, blá, blá, desejavam querer saber quem foi Maria, se ela precisava ou não ser também elevada ao céu, blá, blá, blá, como se isto pudesse fazê-la ser mais santa do que ser mãe. Ela foi apenas mãe, coisa que homem não entende. José estava preocupado com o que fazer por causa da Lei. Maria na sua ingenuidade e sensibilidade da vida conferiu a promessa e celebrou como quem não sabe do futuro e não tem medo, sem compreensão ou insegurança: José saberá cuidar disto, deixei-o brincar com interpretações e normas – quase posso ler o que teria pensado. Declara: A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus meu salvador – ser mãe valeria qualquer coisa e só o profundo da alma e alegria do espírito poderiam dizer aquilo que as palavras jamais conseguiriam.
A maternidade é a vida. Tornou-se um símbolo, quase indescritível, quase algo sobre o que não se deve dizer, porque não se consegue dizer, sob o risco de não se dizer nada. Tem um “quê” de sagrado, um “quê” de mistério, um “quê” de sobrenatural; um oculto, escondido, enigmático, mas sublimemente presente como geradora da vida. A dor da maternidade é a dor da vida que dói sem machucar, que sente saudade sem ter ido embora, que morre um pouco como se não fosse vida e vive um pouco como se não fosse morte. É o limite da pureza.
| < Anterior | Próximo > |
|---|









