Para Onde Caminha A Humanidade?
Boletim Da Igreja Batista Em Barão Geraldo, 02 De Maio De 2004.
Reconheço que é um tema amplo demais para uma conversa tão curta. Mas, vamos considerar que este é um bate-papo depois do almoço como quem não quer muita coisa, com isto ou aquilo, apenas pensar. Tenho um motivo para o assunto: o “Dia do Trabalhador”. Isto porque a solução dos problemas do mundo já foi vista como só sendo possível quando não se tivesse qualquer exploração do trabalho humano. Por ora, vamos deixar assim, depois voltaremos a este o assunto.
Quando você fica meio perdido no emaranhado da violência mundial, seja nas favelas do Rio seja no terrorismo de Estado, promovido pelos Estados Unidos, ou o terrorismo suicida, de iraquianos e palestinos, a pergunta que vem é sempre sobre o destino e o rumo da humanidade, e a impressão que se tem é que ninguém tem feito nada.
Isto não é verdade. Não é só você que está preocupado com o mundo. Houve um tempo, para não ir muito longe, em que um pensador francês, J.J. Rousseau, achou que o caminho da humanidade seria retornar ao seu estado de ingenuidade primitiva. Naquela época a Europa descobria as comunidades indígenas, particularmente no Brasil, que viviam da terra, não havia propriedade particular e todos repartiam em comum o resultado de seu trabalho. Isto gerou um sonho que foi abraçado por muitos anos e tornou-se um dos propulsores dos movimentos sociais dos dois últimos séculos, com direito a revolução e trabalhadores no poder. Não deu certo, se tivesse dado não estaria escrevendo sobre isto.
Só que aquele não foi o único caminho. Ao mesmo tempo a tecnologia se desenvolvia, o comércio e a produção mundial estavam acelerados. Por um momento pensou-se que o conhecimento científico, no caso técnico, seria o caminho para o “novo homem”. Não deu outra: “vamos abrir escolas, o segredo está na educação”. Não é preciso dizer que a “tecnologia” foi a responsável pelas carnificinas do século passado, “o mais sangrento da história” (Hobsbawn). A “técnica” também não foi a resposta, apenas consolidou tantos benefícios como mortes.
Não preciso mencionar outros grandes movimentos de redescoberta do ser humano e seu futuro. Freud reencontrou a resposta no profundo do ser humano, seus mitos, frustrações e sonhos. A resposta assim não estaria “fora do ser humano”, mas dentro, tão dentro, que chegava ao “inconsciente”. O psicologismo, a partir de outros estudos, tomou conta da sociedade. Outros “métodos” foram criados, como a conhecida “terapia”. Afinal o ser humano precisa ser “reconstruído”. Se ele [o ser humano] pudesse se “desconstruir” e “construir-se” de novo, a resposta estaria ali, e a felicidade seria afinal uma questão que dependeria apenas do íntimo. No íntimo uma “angústia” que nunca se conseguiu direito resolvê-la.
Voltemos aos trabalhadores. Houve uma época em que se pensou que toda a tragédia humana estava na opressão do sistema aos que produziam. Não vamos ser ingênuos: da escravidão à industrialização - tudo foi (talvez seja) insuportável. Homens/mulheres sendo transportados como animais de um continente a outro; ou na industrialização com crianças morrendo em minas de carvão e trabalho familiar que não era suficiente nem para se comer. Conquistamos muitas coisas a custo de muito sangue e fome. Se hoje temos uma jornada de trabalho limitada, benefícios como férias, aposentadoria, etc., só foi possível porque teve gente que morreu lutando. Só que uma coisa é tentar uma justiça social, outra coisa é achar que os problemas da humanidade seriam resolvidos com uma igualdade provocada por um sistema. A igualdade virou sonho.
Não posso deixar de mencionar também outro sonho: o do Estado organizado. Isto começou com a argumentação de que a sociedade não surgira por causa de uma ação divina, mas mediante acordos, pelos quais surgiram as regras de convivência e organização política (Rousseau). Alguns anos depois Darwin disse que as espécies mais fortes é que haviam sobrevivido na natureza, por uma seleção natural. Não demorou muito para as duas coisas se juntarem (com tantas outras mais) e deu no que conhecemos como fascismo, que impulsinou o nazismo, e concebeu a figura de Hitler: um Estado, com regras definidas, composto por uma raça pura, seria a “revolução” necessária para um novo “homem”.
Já sei o que você poderá estar pensando. Você acha que agora eu vou mencionar a chave, o segredo, para a tal felicidade, que seria o cristianismo. Errou de novo. Antes de Rousseau a Igreja também tivera a sua oportunidade. Foi um longo tempo para mostrar a sua contribuição, talvez o tempo mais longo da história. Foram cerca de mil e seiscentos anos de domínio absoluto, com o acúmulo de riquezas, ostentação, corrupção, inquisição e tantos outros etcéteras que não dá nem para começar. O protestantismo se opôs a isto, com a promessa de uma Igreja feita agora pelo povo, no embalo da democracia, um retorno (como o de Rousseau) ao primitivismo bíblico. Não vou falar no resultado do fundamentalismo protestante “norte-americano”, com o possível envio de verbas para sustentar Israel contra os Palestinos, já que não há pesquisa sobre isto. Só pelo fato da gente achar que é possível, já causa tristeza.
Para onde caminha a humanidade? Ao que parece a resposta não está nos grandes sistemas, que sempre acabam corrompidos pela natureza pecaminosa do ser humano. Nem a Igreja está livre disto. Jesus não se enganou, e a Bíblia também não. Jesus falava de um Reino dos Céus com poucos entrando, de caminho estreito, de sonhos de paz os quais seriam ditos aqui e acolá, mas que nunca seriam “a resposta”. Nunca se pensou numa sociedade que seria sucessora da tragédia da raça humana. Jesus apontou que é preciso morrer, para viver. Só a morte faz uma vida nova e vida nova não implica em sociedade nova, pois a sociedade nova não está “aqui”, não pertence a este mundo, que já não tem solução. É possível que a humanidade apenas caminhe, mas para lugar nenhum, porque não há “lugar”, não há “reformas” ou “acordos”, sistemas organizados ou tecnologia, pós-modernidade (chi! não falei dela) nem globalização (desta também não), tudo é opressão e tragédia, tudo remete para um único ponto: fome de Deus, fome de vida. E vida não está num determinado “lugar” ou situação, mas está numa pessoa: Jesus.
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