Ressurreição e Vida
Boletim Da Igreja Batista Em Barão Geraldo, 11 De Abril De 2004.
Quem pode explicar a ressurreição? Este talvez seja o um dos grandes erros de gente que acha que tudo na religião, ou mais precisamente no cristianismo, necessita de explicação, e qualquer coisa pode ser explicada. Já teve gente achando que a ressurreição é uma questão psicológica, interna de cada um, depende de quem crê, ou ainda a ressurreição acontece todos os dias. Outra besteira é colocar a ressurreição apenas do ponto de vista físico; mostram a impossibilidade de um corpo voltar a ter vida, o cérebro voltar a funcionar, etc. A ressurreição não é um problema de estudo da psicologia, nem da medicina. A ressurreição é um problema religioso, teológico, e só a teologia é capaz de lidar com ela.
Isto porque a Bíblia não está preocupada com estas coisas. O milagre da ressurreição não foi o de voltar da morte física. Isto parece claro porque o próprio texto bíblico diz sobre outras pessoas que ressuscitaram, e não tiveram tanta importância como Jesus. Pode ser dito que a importância de Jesus sobre os demais que ressuscitaram, é que estes voltaram a morrer. Só que isto não é suficiente, porque você colocaria a ressurreição de Jesus ao lado das outras, só que com um pouco a mais de qualidade. Isto é diminuir a ressurreição.
Ressurreição é outra coisa, e é mais do que um milagre. Seria necessário um esforço de sua parte para compreender a expectativa do próprio ministério de Jesus. Foi um ministério singular, resgatou o valor da vida, mostrou a precariedade do sistema religioso da época e a opressão e vida do pobre, a miséria social, econômica e moral. De repente, tudo acabou, Jesus morreu. Não poderia ter morrido, mas morreu. Poderia ter chamado anjos, mas não quis. Poderia ter dado um jeito para não sofrer tanto, ou morrer tanto, mas não fez, não quis, não mudou. Morreu e deixou-se morrer. Vivo poderia continuar a tratar da injustiça social, da fome, do pobre, e reformar a religião decadente. Poderia, mas não quis, morreu e morreu mesmo. Vivo seria um líder, poderia tomar o poder dos romanos, poderia promover uma “guerra santa”. Só que morreu, e morreu mesmo. Se a ressurreição fosse uma questão de dar vida a um corpo físico, Jesus voltaria para continuar a sua reforma social e política, e mostraria que o seu poder era suficiente para vencer a própria morte. Nada disso, Jesus ressuscitou e foi embora. Passou um tempo conversando com este ou aquele, grupo pequeno ou grande, e depois foi embora. Não fez mais nada de novo, não reassumiu o que havia deixado, não voltou só por voltar. Aliás, não voltou. Foi embora. Não tinha mais nada para fazer, tudo estava feito, completo. Não resolveu tudo, porque não viveu para resolver tudo. Também não ressuscitou para completar o que não tinha conseguido fazer antes da morte. Antes da morte, fizera tudo o que precisava ser feito, não precisava voltar ao mundo “físico” para continuar nada. Só ressuscitou, e foi embora. Se o problema da ressurreição fosse apenas físico, Jesus poderia ter continuado o ministério. Seria um testemunho e tanto, andando de novo em Jerusalém, depois que a cidade o vira caminhando com a cruz nas costas. Só que isto seria reduzir a ressurreição a um milagre.
A ressurreição é mais do que isto. Mais que milagre é a recriação de um novo princípio. Uma recriação que faz João reescrever o Gênesis: No princípio era o verbo... É a mesma coisa que: No princípio criou Deus os céus e a terra. É a vida de novo, mas uma vida diferente. Antes uma vida que vivia para a morte, agora uma vida que vive para vida. É como se fosse um superlativo de vida, algo sem fim, sem medo, sem destino trágico, sem a angústia do ter que morrer. É vida, simplesmente vida. Vida para além da vida, apenas vida e só vida. Depois da vida, vida que não tem morte. Por isto Jesus não teve o que fazer, apenas ir embora. Tudo estava completo, não porque havia um corpo, mas porque havia vida. A expressão registrada no Evangelho de João de que Jesus veio para termos vida, e vida abundante, deve ser compreendida neste sentido. João relata muitos sinais que Jesus fez, a começar por transformar a água em vinho. Nenhum outro Evangelho registrou tantos milagres, tantos sinais. A ressurreição não foi um sinal a mais, foi a instauração da vida, vida livre, afastando por completo da tragédia da morte. A pergunta que se faz não é se a ressurreição seria possível ou não. A pergunta é o que tanto de vida há na ressurreição. A primeira pergunta tem como resposta talvez um “sim”, talvez um “não”, um pouco mais, um pouco menos. A segunda tem como resposta a profundidade da vida. Não se sabe o que é vida, como não se sabe direito o que seja ressurreição. Só a impossibilidade da ressurreição leva ao mistério da vida sobre vida, ou graça sobre graça, como preferiu João. Não tem tamanho, nem ameaça, nem morte, apenas abundante. O que já é imenso, sem medita ou limite, chamado “vida” ficou ainda maior, ficou “abundante”.
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