Faculdade Teológica Batista de Campinas

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“Você Nasceu Para Vencer”

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“Você Nasceu Para Vencer”


 

Pastor Natanael Gabriel Da Silva

Igreja Batista Em Barão Geraldo – Boletim  - 20 De Junho De 2004.

 

Abri um jornal evangélico nesta semana. Numa meia página havia um pregador conhecido apontando para mim: você nasceu para vencer! Coloquei o jornal de lado, e o pregador continuava apontando para mim. Parecia aqueles cartoons de loja de celulares com atores conhecidos, em tamanho natural, que ficam olhando você passar por eles; continuam irritantemente sorrindo e te observando, vigiando, como se seguissem os seus passos, convidando-o a um consumo que você não precisa.

 

Você nasceu para vencer! Na verdade não é isto mesmo? Não, não é! Então você nasceu para perder? Também não! A frase é uma lógica barata, comercialista, como se a vida pudesse ser resumida numa coisa ou noutra. Tem por detrás um pensamento mais antigo do que o guaraná com rolha. É como se dissesse que a vida de uma pessoa já pode ser descrita desde o nascimento. Isto pode ser verdadeiro quanto aos caracteres biológicos, mas errado quando se trata de vida no seu sentido mais abrangente.

 

Não vou fazer um contraste disto com o fariseu que orava e já tinha vencido. Jesus disse que na oração o fariseu já havia recebido o galardão. Em outras palavras, se o fariseu desejava a vitória em ser admirado, já havia conseguido, embora não tivesse conversado com ninguém, a não ser com ele mesmo. A questão não é ganhar ou perder, o problema é o teto disto, o limite, o “tamanho” do que se ganha. Explico melhor. O limite do fariseu era ser admirado, seria a sua vitória, seria o seu "galardão" ou recompensa. Jesus disse algo como: "Ele ganhou! E tem mais, não precisou nem esperar ou fazer qualquer outra coisa. Já recebeu, e com certeza sabe disto! Sairá feliz, não porque conseguiu tudo, mas porque a sua vitória tem o teto baixo”.

 

Eu disse que não iria falar do fariseu. Acho que já deu para você perceber que existem vitórias e vitórias. Num outro caso, disse Jesus que um produtor teve a vitória de encher os celeiros, e ficou contente com isto, porque o limite do seu interesse era a plenitude do que pudesse conquistar com o seu trabalho e dinheiro. Ou seja, ele sabia o que era descanso, o que era dinheiro, o que era viver bem, só não sabia o que era alma, e muito menos que o valor da vida estava nela. Ou seja, ele possuía um conceito de alma, que tinha o teto baixo, um limite estreito.

 

Outra vez: existem vitórias e vitórias. Outro conceito: o limite da vitória é o limite do desejo. Eu sei que você se lembrou da afirmação de Jesus, de que “onde estiver o seu tesouro ali estará também o seu coração.” Se você fez isto, já caminhamos a metade do percurso.

 

A outra metade é o limite do desejo pela vida que só pode ser conquistada com a morte. Não é uma contradição, é o extremo. Trata-se do tamanho do que não tem tamanho, alguma coisa como infinito que só pode ser medido pela ausência de medida. Em outras palavras, enquanto você estiver usando um metro, para medir o conceito de distância, ou um dia, para medir o conceito de tempo ou ainda uma conquista, para medir o conceito de vida, terá que usar dois princípios básicos para ter algum “resultado”: ou diminui o "tamanho" da distância, do tempo ou da vida, ou simplesmente, diz que a tarefa é impossível de ser realizada. Isto é, o instrumento é inadequado porque é pequeno demais, muito, mas muito pequeno. É como se você construísse uma casa baixa, só para dizer que tem altura para tocar no teto.

 

Quando então você lê: você nasceu para vencer!. Ou a vitória é mais curta que vida e, portanto, não interessa, ou você não sabe o que é ser vencedor. O resultado acaba sendo o mesmo.

 

É este o sentido quando Jesus diz que vida se conquista com a morte. Não é uma retórica ou o chamado ao sofrimento, é a sublimidade da vida. Sua beleza e imensidão só pode ser conquistada pela morte ou pela perda. Para se ter vida, é necessário perdê-la. Quem ganha sem perder, ou ganhou menos, ou desconhece o que falta para se "ganhar". Nos dois casos, ganhou, mas perdeu. E esta poesia da vida não tem fim, não tem expressão ou termo. Qualquer coisa que você utilize ficará sempre pela metade. Isto porque a palavra como medida, mesmo que superlativa, é curta. Você pode tentar dizer de que se trata de “vida eterna”, expressão bíblica ainda não adequada. Não porque a Bíblia não tenha como dizer o que diz, é que o ser humano não tem vocabulário para acompanhar o seu tamanho, o seu teto. “Vida eterna” é uma relação entre a vida e o tempo, e é uma forma de dizer que o que não pode ser medido, fica ainda maior. Só que a vida com Deus não é só “eterna”, não tem apenas o sentido de ser de um tempo fora do tempo, e mais que o tempo. Jesus disse que ela é “abundante”, vida sobre vida com mais vida, algo absurdamente superlativa. O apóstolo Paulo também mostrou que “nem a morte, nem a vida” (vida esta que temos e morte esta que esperamos), são maiores do que a salvação, ou “o amor de Deus que está em Cristo Jesus”. Diz mais: diz que é vida superlativa ao “presente e ao porvir”, coisas que você, em princípio, não pode “medir” ou “mudar”; não tem “altura” que possa chegar ao “céu”, nem profundidade que possa chegar ao “abismo”, ao fosso que não tem fim. Vida assim não é apenas “vida”, é mais que isto, é absurda, é sem tamanho, sem teto ou limite. Você nasceu para vencer! – definitivamente não! De tão grande e imensa, a vida só ganha quem a perde; só vive quem morre; só recebe quem acha que nunca a teve; não há religião que a conquiste; não há esforço que a compense; só a morte, morte e morte mesmo.

 

Talvez a frase devesse ser: você nasceu para morrer! Esta sim seria uma mensagem bíblica, mas uma propaganda ruim. Ela mostraria que a morte é o caminho necessário para a vida; morte por vontade própria em Cristo e vida dada por ele, que também foi resultado de morte; ou, ao contrário disto, morte sem saber que se morre, sem resultado de vida.  As pessoas ainda preferem a vida que leva à morte, do que a morte que dá a vida.  Fazer o quê, né?

 

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