Faculdade Teológica Batista de Campinas

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Aula Inaugural

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Aconteceu na última segunda-feira, 16/2, na Igreja Batista do Cambuí, o preletor foi o Pr. Paulo Andrade, Casado com Dora Andrade e pai de três filhos: Diogo ( 24 ), Danilo ( 21 ) e Guilherme ( 20 ). Formado em medicina pela UNIFESP. mestrado em teologia pela Faculdade Teológica Sul Americana na área de ministério pastoral. Exerceu a medicina por 25 anos na Escola Paulista de Medicina e clínica privada. A partir de 2002 começou o ministério de tempo parcial na IBMorumbi e a partir de 2005 em tempo integral. É pastor responsável pela IBMorumbi em Granja Viana.


Abaixo a palestra do Pr. Paulo Andrade

O SERVO E O MUNDO DE HOJE               I.      O mundo em que vivemos (pós-modernidade). Dou como título o servo, para não usar líder – palavra muito usada hoje em dia, mas que não gosto e não vejo base para usá-la, sinto-me mais a vontade usando servo.                Hoje vivemos num mundo chamado pós-moderno, onde não existem mais fundamentos e verdades. Cada um tem o direito de pensar e fazer o que lhe é mais prazeroso (Paulo descrevendo essa nossa época diz: mais amantes dos prazeres do que amigos de Deus. 2 Tm 3:4).             Ouvimos dizer: essa é a sua verdade, não a minha; viva com a sua que eu vivo com a minha.  Pós-modernidade. A visão moderna de que a Razão resolveria todos os problemas da humanidade foi, paulatinamente, frustrando a todos, principalmente diante de um século XX com suas duas guerras mundiais, o holocausto, Stalin na Rússia e Hitler na Alemanha, a queda do regime soviético entre outros. Diante de uma enorme evolução da ciência como nunca houve, a capacidade produtiva também sem igual, a cura da maioria das doenças, a globalização, observa-se, paralelamente, mais da metade da população mundial vivendo na miséria em um mesmo planeta onde a opulência cega não enxerga seu próximo, essa mesma ciência não respondendo a anseios profundos como os transtornos ecológicos, poluição, radioatividade, mortalidade infantil, doenças epidêmicas como a imuno deficiência adquirida (AIDES), entre outras.     “A chegada do pós-modernismo poderia ser descrita como a perda de entusiasmo pelas convicções básicas do modernismo”.[1] É no vazio e na frustração que a modernidade deixou onde agora está se instalando o pós-modernismo. A confiança do modernismo diante de fórmulas políticas como o Marxismo caiu em 1989 com a queda do muro de Berlim, o país idealizado por alguns como regime político ideal, a Albânia, se mostrou o que era na realidade. O “Novo Homem” criado pelo Marxismo foi trocado pelo “Velho Homem” com sua natureza caída. A desesperança onde não há mais uma verdade, porém muitas verdades, ou seja, nenhuma verdade denota a real falta de convicção generalizada, sem absolutos, com base no pluralismo e na divergência.  Para os pós-modernistas a convicção modernista baseada em absolutos que levaria a um mundo sem problemas, pelo contrário, levou a sistemas opressivos, guerras e campos de concentração, o absoluto levando a opressão e ao abuso do poder é a conseqüente conclusão. No campo da ciência, as respostas e soluções de um lado não compensariam os problemas ecológicos do outro lado, como a poluição e a destruição da camada de ozônio, o real perigo de uma guerra nuclear, capazes de destruir o planeta como um todo. A “desconstrução” seria a teoria literária pós-moderna onde nem as palavras têm um significado permanente, o sentido é dado de acordo com a vontade de cada interlocutor, a identidade e a intenção do autor são totalmente irrelevantes para a interpretação do texto. “Todas as interpretações são igualmente válidas, ou igualmente sem significado”.[2] (Dificuldade com a interpretação da Bíblia). O ser pós-moderno não tem identidade, é apenas um ser social, a sociedade condiciona essa pessoa a agir e ela obedece desaparecendo a idéia de culpa, desaparecendo a idéia de responsabilidade pessoal. Essa falta de responsabilidade pessoal está intimamente ligada a rejeição de absolutos, o sujeito tem opções à sua frente nunca a verdade. O pluralismo é a marca do pós-modernismo em todas as áreas como na história, arte, literatura, antropologia, educação, filosofia, ciências sociais e na teologia onde a verdade de cada um é aceita, não havendo mais um só Deus, uma só fé, um só caminho, uma só verdade. Esse pluralismo leva a pessoa ao seu mundo privado, ou à privatização, onde experimenta a fragilidade, a instabilidade e a precariedade de uma solidão; a vida privada é pessoal, fragmentária, dá liberdade à pessoa e ninguém tem o direito de se intrometer. O mundo público desenvolve-se no espaço dos negócios, da economia, do Estado e da ciência; a pessoa transita entre os mundos privado e público em uma dicotomia perdida, fragmentando sua consciência, administrando padrões éticos familiares e religiosos antagônicos com sua privacidade intocável esquizofrenizando sua mente, deixando-se livre a escolha de papeis a desempenhar de acordo com o ambiente em que se está.  O iluminismo deixou uma fome de pessoalidade, de intimidade, de afetividade. Assim como a pessoa não cristã está à procura de respostas para as suas íntimas angústias que não são respondidas com fórmulas, posições, dinheiro, poder ou sexo; o cristão também está carente dentro da igraja e faminto no meio de uma organização sufocante e com programas excelentes. Palavras e definições se tornaram superficiais a até esquecidas, como por exemplo: devoção, espiritualidade, afeto, intimidade, sobrenatural entre outras. O mundo pós-moderno está perguntando à igreja e cobrando um equilíbrio e uma coerência na sua prática entre: crescimento e/ou comunidade, excelência e/ou espiritualidade, competência e/ou afeto, grandeza e/ou pessoalidade. Se a maneira do mundo crer que Deus enviou Jesus for pela comunhão trinitária com a Igreja e a Igreja com ela mesma (Jo 17:21), como essa igreja se posicionará diante dessas polarizações? A herança que o iluminismo deixou para a sociedade pós-moderna é o secularismo, uma filosofia que considera a religião e a moralidade como questões de opinião individual. O secularismo defende que somente o que é definido pelos cinco sentidos é real o resto é questão de opinião, sendo assim o secularista, ou seja, uma pessoa pós-moderna é uma pessoa que não nega a Deus, mas nega a relevância, ou a importância de Deus. O centro da filosofia secularista é o próprio homem, o bem estar, a busca a felicidade, a diversão o direito de viver e ser feliz é o alvo da pessoa. A vida da pessoa secularizada está voltada a gastar tempo, energia e dinheiro na carreira, na família, amizades, diversão e férias; Deus não cabe em um mundo secularizado, não existe a necessidade de perdão, da graça salvadora de Deus, e, principalmente, se torna intolerável a idéia do negar-se a si mesmo, tomar a cruz dia a dia. (teologia secularista, igreja secularista). As dimensões atuais do secularismo podem ser definidas como: Ø      Materialismo onde as decisões, tanto políticas como pessoais não levam em consideração a vontade de Deus, mas sim o benefício econômico. Ø      O hedonismo é uma marca característica da pessoa que busca intensamente o prazer e a satisfação pessoal. Ø      O ceticismo é a pessoa que não crê, já experimentou o cristianismo e diz que não funcionou, as boas novas não são tão boas assim. Ø      O individualismo é o sentir-se completo e sem necessidades. Ø      O relativismo nega os absolutos, afirmando que não importa no que se acredita desde que acredite sinceramente. Ø      Pessimismo é a falta de esperança, o que importa é o presente, pois o futuro é totalmente incerto. Ø      Pós-cristão é o que se crê, principalmente a população europeia, onde o cristianismo não pertence ao presente nem ao futuro, mas ao passado. As conseqüências do secularismo são a exclusão do âmbito público, tanto a religião como a moralidade; as pessoas ou se tornam cristãs nominais sem compromisso ou seu cristianismo se torna sincrético com forças demoníacas. A pessoa não perdeu interesse pelo mundo espiritual como escreve Linus Morris:  “A Alemanha tem apenas 30 mil clérigos cristãos, comparados com 90 mil bruxos e adivinhos; a França tem menos de 36 mil clérigos católicos romanos, porém, mais de 40 mil astrólogos profissionais (licenciados). Muitos outros astrólogos praticantes de curas místicas, médiuns, necromantes, e adivinhos atuam clandestinamente. Ao mesmo tempo 400 editoras enchem as bancas de revistas francesas com literatura ocultista”.[3]         O vácuo criado pelo secularismo está sendo ocupado por religiões não cristãs, como os muçulmanos invadindo a Europa, já são: 3% da Alemanha e Inglaterra e 7% da França[4], assim como hindus nos Estados Unidos, budistas que se tornou uma religião de uma classe A e B, e entre intelectuais no Brasil e no mundo. As seitas, ditas cristãs, também estão em efervescência como Mórmons, Testemunhas de Jeová, Meninos de Deus, Igreja Universal da Unificação (do Rev. Moon). A “Nova Era”, mesmo sem uma organização central, contém elementos de unificação mundial pregando que todas as religiões têm um pouco de verdade e que cada um libera a natureza divina em um panteísmo diabólico. Com toda essa vasta gama de seguimentos a moralidade mudou abandonando os padrões sociais baseados nos ensinos cristãos, os valores da fé saindo do âmbito público e indo para o privado, relativizou também a velha moralidade surgindo uma nova moralidade, banalizando o sexo, tanto virtual como na prática como, por exemplo, a prática do “ficar” entre os jovens que sem compromisso algum podem ter relações sexuais com vários parceiros em uma só noite de festa. Com a previsibilidade saindo de cena, não existe mais a idéia de que tudo deve ser conseqüência natural de alguma lei, enfraquecendo a noção de mudança, perdendo-se noções de arrependimento e conversão, de visão, de responsabilidade e revisão de realidades. Há em contrapartida uma desesperada busca por sensações fortes e intensas, a falta de compromissos é a regra; a teologia da prosperidade buscando uma fé utilitária, trocando o sofrimento prometido por Jesus a seus seguidores por maldição de Satanás, sendo este sanado por simples exorcizações.“Os ocidentais de hoje podem estar melhor materialmente e tecnologicamente; mas, espiritualmente e moralmente não estão” [5]. Diante do exposto qual o nosso papel como educadores e pastores? Como mostrar o que é fundamental? Como mostrar Cristo como Senhor e Salvador; de proclamar o evangelho, o evangelho puro, porém tão pouco atraente para uma sociedade pós-moderna.              II.      O papel do servo. Como professores de teologia, pastores e principalmente cristãos devemos estar persuadidos e sermos fieis a uma cosmovisão cristã. Isto é, alguém que opera dentro do referencial que enxerga conscientemente todas as realidades e relacionamentos da vida a partir de uma perspectiva bíblica coerente e uniforme; e, por conseguinte, honra o Deus das Escrituras. Temos que ter o compromisso com uma perspectiva teocêntrica da vida e da forma de pensar, tendo como único objetivo, tanto viver, como comer, como beber ou fazer qualquer outra coisa, façamos tudo para a glória de Deus (1 Co 10:31). Como professores de teologia, alunos, pastores quero terminar com um apelo para que nossa vida, nossas aulas, nosso ministério seja baseado em:  1.      Reforçar a confiança na suficiência, superioridade e praticidade das Escrituras ao lidar com as questões da vida. A fonte em Cristo e em sua Palavra não são apenas suficientes como superiores a outras regras ou leis.2.      Incentivar o pensamento bíblico com relação às questões da vida, desde o cotidiano até à teologia. Responder as perguntas: “O que significa pensar biblicamente, e como podemos desenvolver uma mentalidade bíblica ou uma cosmovisão consistentemente bíblica?”.  3.      Ajudar a compreensão dos problemas através da visão das escrituras e responder a pergunta: ”O que as escrituras falam a respeito do problema citado?”. 4.      Demonstrar como a ética deve ser coerente com nossas convicções teológicas. Responder a pergunta: “Como o que creio deve interagir com minha ética?”.5.      Ter diretrizes bíblicas para o que ensino e para o que faço. 6.      Promover uma abordagem das Escrituras que seja tanto exegeticamente correta como extremamente prática. 7.      Descobrir se o secularismo está contaminando a minha ética em detrimento as Escrituras.[6]    E para finalizar, sinto que a nossa igreja evangélica de hoje deve sofrer uma nova reforma, porém com os mesmos lemas da reforma do século XVI: Sola Scriptura, Sola Gratia, Sola Fide, Soli Deo Gloria.    

[1] MIDDLETON,J.RICHARD e WALSH, BRIAN, J. Truth is stranger than it it used to be. Downers Grove: IVP, 1995. p. 11.

[2] SALINAS, DANIEL. ESCOBAR, SAMUEL. Pós-modernidade: novos desafios à fé cristã. São Paulo: ABU, 1999. p. 28.

[3] MORRIS, Linus John. Uma igreja de alto impacto. São Paulo: Mundo Cristão, 2003. p.36.

[4] Ibid., p.37.

[5] Ibid., p.40.

[6] MACARTUR, John F. Introdução ao aconselhamento bíblico:Um guia básico dos princípios e prática do aconselhamento. São Paulo: Hagnos, 2004. pp 11-13; 183.

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