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Deus Na Filosofia De Kant: Kant E A “Revolução Copernicana”[1]

Deus Na Filosofia De Kant: Kant E A “Revolução Copernicana”[1]

por Natanael Gabriel da Silva[2]

Preliminares

O pensamento de Kant deve ser compreendido a partir da fixação de categorias de julgamento capazes de fazer uma “leitura” do universo onde o ser humano, sujeito do conhecimento, se situa. Basicamente, até então, o conhecimento era traduzido na apropriação do ente pelo sujeito. Ou seja, o centro do conhecimento era o ente, dele, para ele e nele estava o sentido. O sujeito do conhecimento era o ente-objeto e ao redor dele “girava” o ser humano em busca de sua compreensão. A “revolução copernicana” de Kant inverte a relação, colocando o ser humano no centro, ou mais precisamente a razão do ser humano no centro, e os entes-objetos como “satélites”. Estes “satélites” tornam-se representações e são “lidos”, compreendidos, julgados pela razão do sujeito que conhece. Não trata de conhecer os objeto em si, no que realmente são, mas na demonstração do que seriam, cujo juízo, com fundamento na razão, estabelece o sentido do conhecimento. A esta raiz epistemológica, de onde o ser humano, como centro faz a leitura, e o limite de sua possibilidade hermenêutica, Kant chama de razão pura [3]. Por ser o fundamento e o limite da possibilidade do conhecimento, ou seja, “antes” e por “detrás” da razão não existe nada, ela é entendida por crítica – a fronteira capaz de “ler”, compreender e estabelecer os parâmetros do próprio conhecimento. Para possibilitar um partir da razão rumo ao ente que está além da razão, explicando o deslocamento da razão para que não ficasse ensimesmada, Kant articula a filosofia transcendental.

Conceitos Fundamentais em Kant

Quando se procura estudar um pouco a filosofia de Kant, deve-se ter como postulado o rompimento entre sujeito e objeto, que permite a “leitura” do sujeito e não a unidade anteriormente estabelecida entre sujeito e objeto. Ou seja, há uma ruptura objetiva insuperável, que só pode ser recuperada porque a razão possui postulados para estabelecer o “elo” de leitura.

 

Ao que parece Heidegger teria ficado incomodado com os limites impostos pelo pensamento kantiano, uma vez que este não considerava o problema do ser. Sua leitura de Kant, [4] parece ter sido em tentar mostrar que nem mesmo a mudança de paradigma não conseguira resolver o problema desta relação, sujeito e objeto. Isto é, a epistemologia necessita de uma determinada “unidade” com o objeto, uma vez que sem isto é impossível dizer qualquer coisa sobre ele. O abismo não pode ser total, pois geraria um desconhecimento completo, sob o qual este mesmo objeto não poderia se “demonstrar” como passivo de compreensão. Nesta direção, Heidegger tentou superar o abismo ao procurar uma relação de unidade e encontro do sujeito e objeto como necessários ao diálogo. Que há uma possibilidade de relação, isto parece claro, até porque o ser humano não poderia conhecer algo se não fosse estabelecida uma possibilidade de leitura. Isto independe se a crítica é o da razão pura, ou se o limite é a analítica existencial. [5] Ao mesmo tempo em que há uma ruptura do ser centrado em si-mesmo, com o mundo há um ser-no-mundo[6], independente do que seja o conceito de ser; seja o existencial ontológico, cuja relação se estabelece abstratamente por um ser que não é um ente (Heidegger), ou racional crítico, mediante as categorias do pensamento a priori (Kant). O que se dá é uma relação “metafísica”, uma unidade, um conjunto inseparável de um todo presente.

Entretanto, uma coisa é fazer a leitura desta unidade como dada e dela mesma e declinar o sentido universal do sujeito que conhece. Isto é dar à unidade uma “pré-existência”; uma existência anterior, em outras palavras, uma unidade metafísica antecedente. Outra coisa é o migrar a uma possível unidade, a partir do conhecimento, ou mais precisamente do sujeito que conhece como se o sujeito fosse o limite. Isto faria com que esta unidade não se tornasse dependente da metafísica, mas de uma outra fonte que criasse os elos de relação sujeito e objeto. Para Kant este seria fundamento seria a “razão pura”, para Heidegger o “Ser-aí”. Kant ao “retirar” da metafísica o primado da leitura do sujeito diante do objeto, e torná-la dispensável diante da “razão pura” possibilitou uma revolução no pensamento, e que ficou conhecida, como o próprio Heidegger indica na sua leitura de Kant, de “Revolução Copernicana”, da escolástica metafísica  à crítica da razão. A primeira tem como fundante a metafísica escolástica, quando a resposta é dada antes da pergunta. A segunda segue a centralização da razão, como pergunta filosófica. Está é  colocada primeiro, possibilitando uma resposta filosófica na pergunta pelo sentido. È “copernicana” em razão da mudança de eixo hermenêutico: fazer a leitura da terra como o centro do sistema solar, ou pensar no sol como sendo este centro. Ou seja, ou se faz a leitura a partir da unidade da metafísica aristotélico-tomista, ou se coloca a razão, mais precisamente o sujeito do conhecimento portador desta razão, como referencial de leitura. Neste caso a filosofia emerge como a que pergunta pelo sentido da razão humana como fundante do juízo (Kant), ou a pergunta pelo sentido do ser, como fundante da existência (Heidegger). Em ambos os casos, e pergunta, tendo o “conteúdo dos juízos” ou sedo apenas “existencial”, será sempre a “matriz” da qual emerge a filosofia. Esta possibilidade da pergunta pelo sujeito, antes da resposta metafísica, tem a sua sistematização possibilitada a partir da analítica kantina.

Assim já é possível identificar, pelo menos como ponto de partida, a “razão pura” por um lado, que pergunta pelo objeto que se apresenta pela experiência, por outro lado. O percurso entre um ponto e outro chama-se filosofia transcendental[7], e a lógica que “organiza” esta filosofia é a lógica transcendental[8]. A questão a ser colocada agora é a forma de como Kant constrói este sistema e seus conceitos fundamentais.

“Revolução Copernicana” do Pensamento em Kant

Não é objeto deste trabalho fazer uma leitura exaustiva da Crítica da Razão Pura, senão apenas o de justificar a construção sintética do pensamento kantiano, como uma “revolução” no pensamento.

Em princípio, Kant procura afastar o conhecimento da experiência, embora reconheça que todo o conhecimento dela depende, pelo menos para suscitar o objeto a ser conhecido[9]. Ou seja, o conhecimento puro, é puro enquanto parte da razão do sujeito. A forma de expressão deste conhecimento puro se faz pelos juízos puros, ou os juízos a priori. Estes são universais[10] e são os que permitem o próprio sentido da experiência, ou seja, a leitura da experiência exige um profundo que seja “antes” da experiência para esta possa ser lida[11]. A experiência, por si só, não dá conta, não alcança esta “base” da razão pura[12]. Seu limite é o fenômeno, que também será “objeto” de leitura[13]. Por esta razão a experiência, quando acontece, agrega ao juízo algo sobre o que pensa, dando-lhe ou definindo-lhe melhor o sentido. Este tipo de juízo que recebe da experiência o seu adereço, é posterior a um outro juízo que deverá ser mais puro do que ele, capaz de permitir o “deslocamento” do sujeito em direção ao objeto que experimenta. Em outras palavras, os juízos ou são pertencentes à razão antes da experiência, ou recebem da experiência a “modificação” do seu próprio sentido. Apenas os primeiros são realmente puros, ou seja, são sintéticos, porque não são separados entre o sujeito que pensa, ou da razão pura, do fenômeno do ente pensado. Estão na razão como universais. Os segundos são sintéticos, porque são agregados e necessitam da experiência para estabelecer o seu sentido[14].

A experiência como assim indicada, se desloca pela intuição do sujeito, em direção ao fenômeno do objeto. Contudo, este fenômeno tem uma natureza racional, pois é a partir dele que será possível a “construção” de um postulado do juízo. Em outras palavras, se o fenômeno fosse compreendido apenas como experiência, esta seria necessária para dar início ao processo de elaboração na razão pura a cada momento que ocorresse. Disto resultaria numa fragmentação “experiencialista”, que já não seria mais a razão como pura, plataforma pela qual se faz a leitura do mundo. Kant deixa bem claro que:

Que o entendimento só pode fazer um uso empírico e nunca um uso transcendental de todos os seus princípios a priori, e, mesmo de todos os seus conceitos, é uma proposição que, convictamente reconhecida, acarreta importantes conseqüências. O uso transcendental de um conceito, em qualquer princípio, consiste em referi-lo a coisas em geral  e em si; é empírico, porém o uso que se refere simplesmente aos fenômenos, ou seja, a objectos de uma experiência possível. Mas que apenas este último uso se possa sempre verificar, é o que daí se depreende. Para cada conceito, exige-se primeiro a forma lógica de um conceito (do pensamento) em geral, e em segundo lugar a possibilidade de lhe dar um objecto a que se refira. Sem este último, não possui sentido, é completamente vazio de conteúdo, embora possa conter ainda a função lógica de formar um conceito a partir de certos dados. Ora, só na intuição se pode dar um objecto a  um conceito, e embora uma intuição pura seja possível para nós a priori, mesmo anteriormente ao objecto, também essa intuição só pode receber o seu objecto, e portanto validade objectiva, por intermédio da intuição empírica de que é simplesmente forma.[15]

Kant assim conclui:

Todos os conceitos, e com eles todos os princípios, conquanto possíveis a priori, referem-se, não obstante, a intuições empíricas, isto é, a dados para a experiência possível. Sem isso, não possuem qualquer validade objectiva, são um mero jogo, quer da imaginação, quer do entendimento, com as suas respectivas representações.[16]

 

Neste caso, o fenômeno, que se apresenta sob o deslocamento da razão pura, a partir da intuição, é o sentido do conhecimento racional. A fronteira situa-se no fenômeno, que já é a possibilidade de leitura pela razão pura, nada além disto.Kant está convicto de que somente o fenômeno pode ser conhecido. Que o limite da razão se encontra aí. Para além do fenômeno, a razão nada pode conhecer.

Esta impossibilidade poderia encontrar particularmente dois princípios que poderiam estar “fora” da razão, dos quais a razão seria dependente: espaço e tempo. Kant quer fundamentar a sua crítica a partir da razão pura, do sujeito, que se desloca intuitivamente rumo ao “objeto”, mediado pela experiência, que por sua vez encontra-se na de-monstração deste objeto, que é o seu fenêmeno. Qualquer outra fonte de possibilidade condicionante da razão, não a remete para a sua condição crítica fundamental. A possibilidade de de-monstração de qualquer objeto só pode ocorrer nas dimensões de espaço e tempo[17], como condição da leitura pela intuição e experiência do ente ao qual se dirigem os juízos puros. Neste caso, como o juízo se “concretiza” pelo estabelecimento de “parâmetros” do ente que se apresenta, este ente só é tornado possível quando “parte” do espaço e do tempo. Espaço e tempo são formas puras a partir dos quais os entes se demonstram. Em Heidegger vamos ter algo parecido, só que ao contrário, em relação ao ser. Para Heidegger o ser, não sendo um “ente” tem o espaço como ser do ser, como aquele se encontra “no” mundo.[18] Nesta condição de alteridade, modo de ser do ser, o tempo também se dá como sentido do ser, a partir do “aí”, em seu deslocamento de sentido.

Apontamentos finais

A “revolução copernicana” de Kant é a busca do limite da razão como leitura e conhecimento, não dos objetos em si, mas de seus fenômenos. A razão é a fronteira, é a raiz, antes dela não existe qualquer outra coisa, nem mesmo um inatismo, que poderia levantar uma série de questões se este não estaria por “detrás” da razão.

A unidade metafísica e a leitura por temas universais, que impunham uma relação sintética entre o ser humano e o ente que poderia ser conhecido, a partir do próprio ente, recebiam em Kant um novo colorido. A questão então seria: se não há algo anterior à razão, e se a razão pura é o fundante do conhecimento, onde estaria Deus, que não pode ser objeto da experiência e nem poderia estar “atrás” da razão? Se Deus não pode ser objeto da experiência, e acessível a qualquer conceito, e ao mesmo tempo não “está” como fundante da razão pura porque esta é o limite do ser humano, como poderia ser então concebido?  Deus é uma idéia, impossível de ser provado ontologica[19], cosmológica[20]  ou físico-teológica[21].

 

Vimos anteriormente que se não podem, em absoluto, representar objectos pelos conceitos puros do entendimento, independentemente de todas as condições de sensibilidade, porque faltam as condições da sua realidade objectiva e neles só se encontra a simples forma de pensamento. Podem sem dúvida, representar-se in concreto, quando se aplicam aos fenómenos porque estes últimos constituem propriamente a matéria necessária para o conceito de experiência, que não é mais que um conceito do entendimento in concreto. As idéias, porém, ainda estão mais afastadas da realidade objectiva do que as categorias, pois não se encontra nenhum fenómeno em que possam ser representadas in concreto (...).

Mas, ainda mais afastado da realidade objectiva do que a idéia, parece estar aquilo que chamo de ideal, que é o que entendo pela idéia não somente in concreto, mas in individuo, isto é, como coisa singular determinável ou absolutamente determinada apenas pela idéia[22]

Uma idéia, é apenas uma idéia. Não tem apresentação possível de se compreender pela análise da filosofia transcendental, pelo deslocamento da razão dos ser humano em direção ao objeto, até porque não há objeto. Em outras palavras, Kant teria que, ou colocar Deus antes da “razão pura”, o que faria com que a razão deixasse de ser pura, e fatalmente todo o seu sistema não seria mais que uma releitura da escolástica, ou colocaria Deus sob o domínio completo da razão, o que evidentemente seria um positivismo antecipado. Kant não fez nem uma coisa, nem outra. Ao conceber Deus como idéia, ao mesmo tempo parece ter preservado o caráter de Deus como “mistério absoluto”, sem nega-lo. Contudo, colocou-o numa inacessibilidade tão distante, tão rompida, que seria a mesma coisa que dizer que Deus e o Nada seriam a mesma coisa. Por esta razão, Kant contribuiu bastante para uma leitura religiosa e limitação da teoria sobre Deus a partir dos postulados deontológicos que subsumem as declarações da “teologia sistemática”, ou “dogmática protestante”, sem dar conta da ruptura racional insuperável que Kant criara, entre o ser humano e Deus.



[1] Reflexão apresentada no Colóquio Doutorado em Ciências da Religião, Teologia e História: Deus na Filosofia de Kant – 1º parte: Kant e a “Revolução Copernicana”, UMESP, São Bernardo, 25 de maio de 2004.

[2] Mestre e Doutorando em Ciências da Religião, UMESP.

[3] KANT: Crítica da Razão Pura. Trad. de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997, 4ª ed. B24/25

[4] HEIDEGGER, Martin: Kant y el Problema de la Metafísica. pág. 65

[5] HEIDEGGER, Martin: Ser e Tempo, tomo I. Trad. de Márcia de Sá Cavalcante. Petrópolis: Editora Vozes, 2001, 10ª ed. pág. 28

[6] HEIDEGGER, Martin: Ser e Tempo, tomo I, pág. 90

[7] KANT: Crítica da Razão Pura, B27

[8] KANT: Crítica da Razão Pura, A55ss; B80ss

[9] KANT: Crítica da Razão Pura, B2

[10] KANT: Crítica da Razão Pura, B4

[11] KANT: Crítica da Razão Pura, B6

[12] KANT: Crítica da Razão Pura,A3

[13] KANT: Critica da Razão Pura,B8

[14] KANT: Critica da Razão Pura, A7, B11/12

[15] KANT: Critica da Razão Pura, A239

[16] KANT: Crítica da Razão Pura,B 298, A 239

[17] KANT: Crítica da Razão Pura, 1ª secção §2; 2ª secção §4

[18] HEIDEGGER, Martin: Ser e Tempo, tomo 1, pág. 152.

[19] KANT: Critica da Razão Pura,  A592ss, B620ss

[20] KANT: Critica da Razão Pura, A603ss, B631ss

[21] KANT: Critica da Razão Pura, A620ss, B648ss

[22] KANT: Critica da Razão Pura,A568, B596

 

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