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Neopentecostalismo 1 - Uma Introdução Geral

Neopentecostalismo 1

 

Uma Introdução Geral


 

Conferência teológica apresentada pelo Prof.  Isaltino Gomes Coelho Filho à Faculdade Teológica Batista de Campinas, em 12 de abril de 2004

 

 

            Esta série de preleções sobre o neopentecostalismo não será abordada por um ângulo sociológico. Reconheço o valor desta ciência, mas não sou sociólogo de religião. Serão reflexões pastorais. Não pretendo analisar o movimento à luz de perspectivas sociológicas e encaixá-lo dentro desta visão: “como afeta a sociedade”. Não sou melhor do que ninguém nem apresento isto com triunfo, mas meu enfoque será este: como o neopentecostalismo afeta a Igreja e o evangelho? Como afeta a pregação de Cristo crucificado, poder de Deus de para salvação de todo aquele que crê? Pode ser que, eventualmente, aspectos sociológicos apareçam no trabalho. Afinal, como não vivemos sem filosofar, porque somos entes pensantes, não vivemos sem sociologizar, porque somos entes gregários. Mas a questão é mais esta: como somos afetados, como entender e como reagir ao movimento neopentecostal nos aspectos que ele tem que nos são prejudiciais, porque ele traz alguns aspectos benéficos aos quais devemos atentar.

 

            Devo começar, como parece sensato, por uma definição. Já dizia Sócrates: “Se queres conversar comigo, define teus conceitos”. O que é neopentecostalismo? Muitas respostas poderiam ser dadas, mas respondo com uma citação do trabalho “Pontos discutíveis do movimento neopentecostal”: Neopentecostalismo: Movimento surgido em meados do século XX que enfatizava o batismo com o Espírito Santo e os dons espirituais, dinamizando o método litúrgico e incluindo em sua teologia, doutrinas rejeitadas pela fé apostólica e ortodoxa [1] .

 

            Há dois sérios problemas para a análise deste movimento. O primeiro é que vivemos numa época que os pensadores chamam de pós-modernidade, em que tudo é certo e nada é errado. Não se pode nem se deve criticar as idéias alheias, porque “verdade, cada um tem a sua”. Mas uma questão lógica salta aos olhos neste tipo de argumentação: se tudo é verdade, então nada é verdade. Porque argumentos e conceitos contraditórios não podem coexistir na mesma conceituação. O segundo é que o espírito pragmático de um mundo amoral e sem Deus invadiu as igrejas. Este espírito pragmático pode ser exposto assim, em poucas palavras: se alguma coisa deu certo, então é a  verdade. Desta maneira, não pode ser questionada e deve ser adotada. Verdade passou a ser definida por funcionalidade. Com isto, neste espírito acrítico e copista, nossas igrejas estão adotando métodos e técnicas de lavagem cerebral, assumindo técnicas do movimento nova era bem como técnicas de despersonalização e manipulação, tudo em nome da eficácia. Temos sacrificado a verdade cristológica no altar dos resultados e temos trocado a verdade bíblica pelos ensopados de Jacó, que satisfazem nossa fome de resultados. Esquecemo-nos de que os ensopados preparados por Jacó trazem enorme frustração, depois. Os malefícios que isto nos trará ainda não podem ser mensurados, mas será um grande estrago no cristianismo. Um pouco menos de arroubo e de romantismo e uma visão crítica em vez de complacente nos fará bem. Já é possível notar que o movimento evangélico sério sofre as conseqüências do neopentecostalismo.

 

            No Brasil, o movimento neopentecostal pode ser historicamente localizado a partir dos anos cinqüentas. É, na realidade, o segundo ciclo da expansão pentecostal no Brasil, e surgiu mais como um movimento do que como uma denominação estruturada. Exatamente por surgir como um movimento supradenominacional, teve uma abrangência muito ampla, envolvendo, depois, várias denominações. Sigo, a partir daqui, a argumentação de Mendonça, em seu trabalho O neopentecostalismo [2]. Ele lembra que o pentecostalismo iniciado no Brasil, em seus dois ramos iniciais, a Assembléia de Deus e a Congregação Cristã do Brasil, nunca enfatizou a cura divina. Era um movimento de caráter mais espiritual, voltado para uma experiência do crente com o Espírito Santo do que centrado em curas e bênçãos materiais.

 

A questão mudou já nos anos sessentas. Isto porque, a partir dos anos cinqüentas, começou o processo de industrialização do Brasil e com este veio o inchaço das grandes cidades, por causa da migração campo-cidade e das regiões Norte e Nordeste para o Centro-Sul. Nesta ocasião, as favelas começaram a pipocar e os desajustes sociais se ampliaram. Pessoas ficaram desairragadas, sem raízes familiares, culturais e geográficas, formando uma massa humana não beneficiada pelo processo social.. Ao mesmo tempo, estas massas marginalizadas pelo processo social tornaram-se campo fértil para a evangelização. A mobilidade geográfica quebra vínculos sociais e deixa a pessoa sem referenciais seguros. Ela busca por referenciais e os do evangelho, que são os melhores, podem lhe ser apresentados. Em 1953, Harold Williams, americano, iniciou no Brasil as atividades da Igreja do Evangelho Quadrangular, auxiliado pelo pregador da cura divina Raymond Boatright, depois de terem efetuado intensa campanha de evangelização em tendas de lona, sob o nome, bastante amplo, de Cruzada Nacional de Evangelização. Este movimento se iniciou em S. Paulo e teve grande dimensão, alcançando todas as denominações. Seu período áureo foi de 1953 a 1960. A partir daqui surgiu, no Brasil, a Igreja do Evangelho Quadrangular (International Church of the Four Square Gospel). Cito, então, literalmente, Mendonça: “Pode-se dizer que a Igreja do Evangelho Quadrangular, embora tipicamente pentecostal, inseriu nos fundamentos teológicos a chave do neopentecostalismo. Seus quatro fundamentos são: salvação da alma, batismo com o Espírito Santo, cura divina e segunda vinda de Cristo” [3]. Estes fundamentos são, também, pentecostais, mas deram suporte ao neopentecostalismo, que se desviou do pentecostalismo tradicional. Eram a essência da mensagem do grupo que gerou o neopentecostalismo, mas não se parou aí.

 

Quero deixar claro, no entanto, que entendo que este foi o estuário por onde o neopentecostalismo correu, mas não o seu berço. Suas raízes não são sociológicas, mas teológicas. Citei Mendonça, que milita no campo sociológico, mas tomei seu aspecto histórico. Reconhecer o rio por onde idéias correram com mais facilidade não é a mesma coisa que dizer que estas idéias nasceram naquele rio. Como pretendo mostrar na palestra seguinte, os fundamentos são teológicos e não podem ser reduzidos à questão sócio-econômica. Assim fosse, não haveria neopentecostalismo em comunidades ricas e economicamente seguras.

 

            Segundo Júlio Rosa, citado por Mendonça no artigo ora comentado, “o ministério e os pregadores da Igreja no Brasil distorceram e desequilibraram os fundamentos doutrinários da Igreja ao darem excessivo valor à cura divina e à expulsão de demônios” [4]. A fundamentação teológica foi colocada em Hebreus 13.8: “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e para sempre” (Hb 13.8). Desta maneira, os milagres devem ter continuidade e forte presença na vida das igrejas nos dias de hoje. Embora com uma exegese de resultados discutíveis, porque fragmentária e calcada em apenas uma frase, até então os fundamentos eram bíblicos e neotestamentários. Mas partiu-se para uma busca de sinais e prodígios, enfatizando-os acima do conhecimento do evangelho e da pessoa de Cristo. Aliás, esta é uma marca muito forte do neopentecostalismo, a prevalência de sinais sobre a essência. Há pouco, uma igreja neopentecostal (talvez já baixo-pentecostal) anunciava a presença, em seu púlpito, de um rabino judeu. O que um rabino tem a dizer a uma comunidade de cristãos? Que há nele que justifique ocupar o púlpito de uma igreja cristã? É que ele ia dar o testemunho, um pouco duvidoso, de que havia morrido e ressuscitado. Com um sinal desta magnitude, não importava que negasse que Jesus fosse o Filho de Deus. Sinais portentosos prevalecem sobre o conteúdo do evangelho, no neopentecostalismo. Jesus é menos importante que sinais. Lembro-me, aqui, das palavras de Paulo, em 1Coríntios 1.22-23: “Os judeus pedem sinais miraculosos, e os gregos procuram sabedoria; nós, porém, pregamos a Cristo crucificado, o qual, de fato, é escândalo para os judeus e loucura para os gentios”. A curiosidade e a extravagância tomaram lugar de Cristo na pregação. Cristo, na realidade, não é importante, mas os sinais, sim. Inclusive, vi, em Niterói, uma Igreja chamada “Igreja dos Sinais e Prodígios”.  Sinais e prodígios se tornam a força motriz do neopentecostalismo. Ele é, também, produto da reação do irracionalismo (o termo aqui é com denotação e conotação filosóficas) diante de uma sociedade tecnológica. O evangelho se tornou algo inexplicável, algo que não se pode entender, superior à técnica, e quem o domina tem um segredo que os técnicos não possuem. Numa sociedade marginalizada e na qual as pessoas, muitas vezes, não conseguem verbalizar o que vivem, o irracionalismo religioso é uma grande fuga. As pessoas podem não entender como o mundo funciona, mas são detentoras de um poder que as pessoas esclarecidas não possuem. Neste sentido, o neopentecostalismo também apela para o irracionalismo filosófico, e seus pregadores desdenham dos pregadores bem preparados. Estes conhecem palavras humanas. Aqueles conhecem o poder de Deus. E lá vem outra exegese daquelas de arrepiar: “A letra mata e o Espírito vivifica”. É uma apologia do obscurantismo e, ao mesmo tempo, uma forma de se colocar acima da crítica. Não se consegue dialogar com o neopentecostal. Ele conhece Deus e o evangélico tradicional conhece apenas a letra morta da Bíblia (que blasfêmia chamar a Bíblia de “letra morta”!). Não há como contestar uma pessoa que diz que, enquanto está tirando a barba, Jesus vem ao seu encontro, no banheiro, abraça-a e lhe dá um esboço de sermão.

 

            Se este é o aspecto teológico, produto do movimento que produziu, no Brasil, a Igreja do Evangelho Quadrangular, o aspecto litúrgico do neopentecostalismo remonta a Raymond Boatright, que introduziu no culto instrumentos musicais que só se empregavam em shows, como guitarras elétricas e instrumentos de sopro, bem como o cântico de corinhos no estilo country. Surgiram os cultos carregados de intensa emoção, e sob som em alto volume. O aspecto de festa e liberação das emoções começou a se rotinizar. Os ingredientes estavam postos: sinais, milagres, prodígios e emoções afloradas, bem como a rejeição de qualquer teologia que pudesse analisar o movimento. Este estava acima da crítica e do questionamento. Com isto, a arrogância logo chegou.

 

            O movimento que gerou o neopentecostalismo acabou produzindo algumas denominações, como O Brasil Para Cristo, Deus é Amor, Igreja Universal do Reino de Deus e a Igreja Internacional da Graça de Deus. Estas são os maiores representantes do neopentecostalismo no Brasil. Além delas surgiram centenas de igrejas locais desvinculadas de grandes estruturas, formando o que se chama de “pentecostalismo autônomo”. Geralmente estas igrejas existem sem uma doutrina global, sem uma teologia sistematizada, e orbitando sempre ao redor dos ensinos de um líder centralizador, que é inquestionável, um “déspota esclarecido” teológico. Assim, sem um sistema teológico completo e com doutrinas e práticas que são produto de uma exegese fragmentária, de uma leitura bíblica, no dizer de Martin-Achard, “atomizada”, onde inexiste o relacionamento da passagem com o todo, surgiu um movimento com ensinos e práticas as mais esdrúxulas possíveis. Já é possível se falar em baixo-pentecostalismo, um tipo de neopentecostalismo onde as linhas entre baixo-espiritismo e neopentecostalismo foram apagadas.

 

            O neopentecostalismo está bem distante do pentecostalismo, embora este tenha sido contaminado por aquele. Mas os berços paradigmáticos de um e de outro são os mesmos. Sua ênfase teológica não é mais cristológica e sim pneumatológica. Ou seja, eles dão mais ênfase ao Espírito Santo do que a Cristo. Uma situação emblemática disto se vê na logomarca da Igreja Universal do Reino de Deus. Seu símbolo não é a cruz, indicando a centralidade da pessoa de Jesus Cristo, mas sim uma pomba, indicando a primazia do Espírito Santo. Isto se percebe também numa declaração que ouvi de um pregador neopentecostal, pelo rádio, em Manaus: “Cristo é o canal para nos trazer o Espírito Santo”. Sempre se afirmou, e é ensino bíblico, que é o Espírito Santo quem nos conduz a Cristo e que desvenda a pessoa de Cristo ao fiel. O Senhor da Igreja é a segunda pessoa da Trindade. Pelo menos, ele disse “edificarei a minha Igreja”. Mas agora o Espírito Santo se tornou o personagem central, e Cristo, apenas um canal, um meio, para nos trazê-lo. É óbvio que não estou defendendo um hierarquismo teológico, mas ressaltando que há este hierarquismo no neopentecostalismo. E aqui reside um perigo gravíssimo, pois o Maligno se aproveitará desta circunstância: o de banir a cruz da vida da Igreja. Sem a cruz a Igreja é uma comunidade como outra qualquer.

 

            O grande problema aqui é que o Espírito Santo, via de regra, é identificado com a voz do dono do movimento. Sobre isto falarei um pouco mais à frente, quando abordar a questão hermenêutica. Por ora, deixemos a questão registrada, mas em suspenso. Mas isto legitima o senhorio de uma pessoa sobre toda uma comunidade. E possibilita o surgimento de doutrinas pouco sensatas, quando não antibíblicas. Porque alguns desses grupos têm se afastado do ensino de que as Escrituras são a normativa. A normativa é a palavra do líder do grupo.

 

            O movimento neopentecostal derrubou um antigo axioma sociológico. Alegando que o mágico não forma em torno de si uma comunidade, mas apenas uma clientela, Émile Durkheim alegou em As Formas Elementares da Vida Religiosa, que não há igreja mágica. Mas o neopentecostalismo, posterior a Durkheim, trabalha muito com o conceito de igrejas mágicas. As igrejas neopentecostais, e a IURD é o maior exemplo, não são compostas de pessoas envolvidas em uma koinonia cristã. A maior parte não se conhece. Não há um projeto eclesiástico comum aos freqüentadores, que são apenas pessoas clientes, que buscam uma resposta mágica para seus problemas. Muitas dessas igrejas parecem mais com uma estação rodoviária, um lugar por onde as pessoas passam em busca de uma solução para algum problema, do que uma comunidade de fé, com um pecúlio espiritual comum aos seus membros. Algumas delas nem rol de membros possuem. Isto é muito perigoso porque produz uma legião de pessoas que, teoricamente, são cristãs por estarem ligadas a uma igreja chamada cristã, mas que desconhecem os fundamentos básicos do cristianismo, inclusive a solidariedade, a irmandade em Cristo. É cada um por si, cada um para resolver seu problema e cuidar de sua vida. Isto produz um cristianismo mesquinho, de cristãos isolacionistas.

 

Mendonça, no trabalho já citado, lembra ainda que “os mágicos são agentes autônomos que independem (...) de sanções institucionais” [5]. Sendo o mágico um elemento solitário, isto explica a proliferação de igrejas e tendas de magia. Qualquer pessoa pode abrir uma, dizendo-se inspirado por Deus. Essas igrejas ou tendas são controladas por pessoas ou por grupos sem dever para com os clientes, a não ser passar-lhes um produto. Normalmente sob contribuição financeira. E os clientes não têm acesso às instâncias de poder da tenda. São usuários sem os direitos do consumidor e sem um Procon ao qual se dirigir. Consomem o produto, mas não têm poder de ingerir no sistema. Por isto o neopentecostalismo, via de regra, é eclesiologicamente autoritário. Quando alguém fura o bloqueio, discordando das instâncias do poder, produz um racha e sai, criando outra Igreja. Ele é tendente à fragmentação.

 

Isto explica porque o sistema eclesiológico congregacional não é o melhor para o neopentecostalismo e porque um pastor batista que descambe para o neopentecostalismo deixa o sistema. Ele não pode ser questionado. Num ambiente congregacional, como o nosso, ele o será. Um pastor batista que adota procedimentos neopentecostais, se não deixa a Igreja, trabalha longamente para mudar seus estatutos e dominá-la sem óbices. O neopentecostalismo favorece a ditadura eclesiástica. E surge com traumas e atos pouco transparentes, em igrejas tradicionais.

 

Isto explica também, em termos de conteúdo da pregação, porque o neopentecostalismo que teve como suporte teológico o texto de Hebreus 13.8 tenha a maior parte de suas pregações no Antigo Testamento. O Novo Testamento socializa a liderança, com a doutrina do sacerdócio universal de todos os salvos, herança protestante assumida pelos evangélicos de teologia conservadora. O Antigo Testamento elitiza a liderança, colocando-a nas mãos de um sacerdote ou profeta, vozes detentoras de uma autoridade que não pode ser questionada. Isto será mais abordado na questão da hermenêutica neopentecostal, mas desde agora devemos ressaltar isto. O neopentecostalismo se vale, para difundir seus conceitos, de uma massiva pregação no Antigo Testamento, descontextualizada do Novo, e enfatizando mais sinais e maravilhas do que conteúdo teológico. Uma das conseqüências desta atitude é a rejudaização do evangelho, com a presença em nossos cultos de símbolos judaicos e a observação por cristãos de festas judaicas, com o abandono de símbolos e festas cristãs. O natal, por exemplo, é dado como festa pagã, e a festa dos tabernáculos passa a ser vista como festa cristã. A menorah e a estrela de Davi tomam o lugar da cruz, mostrado como símbolo da idolatria. E a estrela de Davi, que não era de Davi, mas um símbolo da Cabala e também da nova era, passa a ocupar lugar de destaque em nossas igrejas. Um dos mais sérios problemas do neopentecostalismo é seu namoro, até escandaloso, com o paganismo. As idéias de Keneth Hagin, por exemplo, foram decalcadas das seitas metafísicas de Boston, como bem o demonstrou Alan Pierat, em O Evangelho da Prosperidade [6].  E são pregadas como revelações de Deus. Hagin mentiu, quando negou que assim tivesse feito, mas confrontado com as muitas semelhanças acabou reconhecendo que copiou idéias pagãs. Mas continua a apresentá-las como revelação, tanto ele como seus discípulos, entre elas Valnice Coelho.

 

Como conseqüência desta situação, um dos maiores problemas do neopentecostalismo é de ordem cristológica: o que fazer com a pessoa de Cristo. No princípio, o neopentecostalismo tinha um brilho cristológico, mas isto trazia um problema, o crivo do Novo Testamento, revelação cabal, final e autoritativa de Deus, padrão para se interpretar o Antigo, tendo Cristo como o cânon dentro do cânon, como enfatizaram os primeiros teólogos protestantes. Porque na teologia conservadora (e conservadora aqui significa sadia) Cristo é o padrão para se interpretar toda a Bíblia. Refugiando-se no Antigo Testamento, alegando ser um profeta com revelações que lhe vieram diretamente de Deus, o pastor neopentecostal se coloca acima de qualquer crítica e acima do exame dos fiéis e dos concorrentes. Com isto, a pessoa de Jesus se esmaece no neopentecostalismo. Não há como negar. Temos uma incongruência no cenário evangélico contemporâneo, produto da influência neopentecostal: um Cristo fraco e demônios fortes. Cristo salva, mas não tem poder para encher a vida da pessoa. Cristo salva, mas a pessoa não se torna sua morada e continua sendo possessa de demônios. Cristo salva, mas não tem poder para quebrar maldições na vida da pessoa. O Cristo que era um taumaturgo, no início do neopentecostalismo, hoje é figura decorativa, e foi substituído por Abraão e Gideão, nas pregações. Estes são mais convenientes.

 

Uma evidência disto que agora comento: numa ocasião, procurei um livro sobre Cristologia, em livrarias evangélicas. Não encontrei um, um sequer. Mas, que contradição, encontrei dezenas sobre demônios, batalha espiritual, guerra com entidades malignas, maldições satânicas, etc. O neopentecostalismo tem deixado, para usar a engraçada linguagem de alguns políticos, uma herança maldita, que faz parte de sua prática doutrinária e litúrgica: uma desmesurada fixação em demônios e um enfoque errado, quando não desinteresse pela pessoa de Jesus Cristo.  Isto trará sérias e funestas conseqüências para o futuro do evangelho.  A crítica da teologia conservadora (e a minha é assim) não é a de luta por espaço. Sempre haverá espaço para quem queira pregar o evangelho antigo. É por antever um futuro problemático com o surgimento de milhares de cristãos e de centenas de igrejas que nada sabem sobre Cristo, que nada pregam sobre Cristo e nada ouvem sobre Cristo. Um cristianismo repleto de superstições e práticas estranhas, onde Cristo não é a figura central, mas periférica. A cruz, a ressurreição de Jesus e a vida eterna com ele são esmaecidas com a ênfase no aqui e agora. Temos já visto um cristianismo hedonista, materialista, que mensura a fé pelo ter coisas, e não pelo ser alguém. A espiritualidade da pessoa e a ação de Deus em sua vida passam a ser vistas pela posse de bens e pelo estado físico, não pelo caráter nem pelo testemunho do Espírito junto ao nosso espírito de que somos filhos de Deus por adoção. Bens estão valendo mais que caráter, neste tipo de pregação.

 

Com isto, caminho para o fim da primeira palestra. O neopentecostalismo, apesar de sua força, de seu dinamismo e da admiração que lhe nutrem certos setores nossos, mais voltados para o bom sucesso dos resultados do que para a ortodoxia, é um grande malefício para as igrejas. Isto digo com o respeito que os irmãos na fé que neste grupo se abrigam merecem. Mas minha consciência de profeta não me permite fazer concessões para agradar. Meu compromisso é com Cristo e com os valores do seu reino. Respeito as pessoas, mas tenho restrições bem sérias ao movimento. A maior delas é que o seu Cristo é uma pálida caricatura do Cristo neotestamentário, como se vê por sua ausência nas mensagens televisivas da IURD. Uma outra é que sua falta de referenciais teológicos produz cada vez mais fragmentação, sempre com um ramo, o que surge, apresentando um evangelho mais descorado. Porque quando se vive de emoções, nunca se está satisfeito. O emocional não se satisfaz com o cognitivo e carece de mais experiências, que devem ser mais fortes. As emoções acabam sendo o referencial do crescimento espiritual. A razão é um dom de Deus. Ele no-la deu somente a nós, humanos. Não devemos abdicar dela. Uma terceira restrição é que a exegese bíblica, para subsidiar práticas, se torna mais cada vez mais estrambótica.  A soma de tudo isto significa que teremos grandes dificuldades com esta massa de cristãos sem Cristo, ou com um Cristo distorcido, no futuro. O neopentecostalismo deixará sérias conseqüências, no futuro da teologia e da própria fé cristã.



[1] MARINHO, Wemerson: Pontos Discutíveis do  Movimento Neopentecostal, trabalho que me veio às mãos, pela Internet. O autor é responsável por uma congregação da IPB em Ipatinga, MG,  diretor da Revista Renascer, e atua num projeto evangelístico através do rádio que fala a 30 000 pessoas aproximadamente todos os dias.

[2]  MENDONÇA, Antonio Gouveia. O Neopentecostalismo, excerto de Estudos da Religião, no. 9, sem dados.

[3] Ib. ibidem, p. 155.

[4] Ib. ibidem, p. 155.

[5] Ib. ibidem, p. 158.

[6]  PIERATT, Alan. O Evangelho da Prosperidade. S. Paulo: Edições Vida Nova, 1993, p. 31

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