Neopentecostalismo 2 - A Práxis Hermenêutica
Conferência teológica preparada pelo Prof. Isaltino Gomes Coelho Filho para a Faculdade Teológica Batista de Campinas, 13 de abril de 2004
Na primeira palestra procurei registrar como aconteceu o surgimento do neopentecostalismo e apontei algumas de suas características. Foi uma palavra de introdução geral. Sem receio de manifestar minha opinião, declarei minhas reservas, que não são poucas, ao movimento. Nesta segunda palestra quero dedicar um pouco de espaço à sua práxis hermenêutica. Esta questão é fundamental porque precisamos, para podermos argumentar teologicamente, ter uma base comum. Para os cristãos, esta base comum sempre foi a Bíblia. A postura teológica dos cristãos de teologia sadia sempre foi a de recitar que “a Bíblia é a Palavra de Deus”. É por aqui que caminharemos, hoje, no entendimento do que seja a fonte de autoridade no cristianismo, vendo o desvio hermenêutico do neopentecostalismo.
Cito o trabalho Pontos Discutíveis do Movimento Neopentecostal, a propósito desta linha da presente palestra, para iniciar minha argumentação:
“O movimento neopentecostal cresce muito atualmente, mas este crescimento não nos impede de questioná-lo. Afinal, não somos vítimas do pragmatismo carismático que pensa que, se algo deu certo, só pode ser bom e verdadeiro. A nossa base de julgamento é a Palavra, nossa regra de fé e prática.” [1]
Fujamos da validação ou contestação de um movimento à luz de seus resultados. A validação ou contestação teológica de qualquer prática deve ser sempre à luz das Escrituras, a Bíblia Sagrada, que reputamos por Palavra de Deus. Nós a temos como normativa e não podemos nos esquivar a isto. Lembremos que o enfrentamento de Lutero à Igreja Católica foi com o uso das Escrituras. São conhecidas as suas palavras de rompimento com o catolicismo, e cabem elas aqui, a propósito da nossa linha de argumentação:
A menos de ficar convencido pelo testemunho da Escritura e por razões evidentes – pois não acredito nem na infalibilidade do papa nem na dos concílios (é sabido que eles muitas vezes se enganaram e se contradisseram), - estou ligado pelos textos bíblicos que trouxe comigo e minha consciência é prisioneira da Palavra de Deus. Não posso nem quero retratar coisa alguma, pois não é nem seguro nem salutar agir contra a própria consciência. Que Deus venha em meu auxílio! Amém! [2]
Lutero, na defesa de suas posições teológicas, escorou-se nas Escrituras Sagradas, rejeitando o Magistério e a Tradição. Estou me reportando ao episódio de Lutero pelo que ele significou em termos de Teologia e de Hermenêutica para o cristianismo. O eixo hermenêutico da Igreja Católica sempre foi sua crença de que ela é a única intérprete autorizada das Escrituras. E isto por uma razão muito simples. Ela produzira as Escrituras, vendo-se como a Igreja Primitiva. Por isto possuía autoridade sobre elas, as Escrituras. Ao optar pelo cânon de Alexandria e acrescentar à Bíblia os livros deuterocanônicos, no Concílio de Trento, em 1546, a Igreja o fez com base nos seus pressupostos teológicos e hermenêuticos. Ela entendia e ainda entende que produzira as Escrituras, ela entendia e ainda entende que continuava produzindo documentos sagrados, e entendia e ainda entende que tinha e tem autoridade sobre a Revelação. Podia perfeitamente acrescentar livros às Escrituras. Ela entende que é o canal de Revelação atual. A Bíblia e o Magistério da Igreja (seu corpo teológico e sua produção) nivelam-se, em matéria de autoridade, à Bíblia. Em oposição a esta compreensão, um dos lemas da Reforma foi Sola Scriptura (“Só a Escritura”), com a rejeição do Magistério da Igreja. Com este lema e esta atitude, Lutero tirou o foco de autoridade da Igreja e o colocou na Bíblia. Esta mudança de foco foi uma das grandes contribuições da Reforma para o cristianismo. A postura protestante e evangélica não é que a Igreja produziu as Escrituras, mas sim que as Escrituras produziram a Igreja. Esta deve subordinar-se àquela. Nós nos subordinamos à Bíblia.
Quando disse que não analisaria o movimento neopentecostal por um ângulo sociológico foi por entendê-lo como sendo um fenômeno fundamentalmente teológico. As tentativas de tudo explicar pela Sociologia me parece uma herança marxista. Os intelectuais brasileiros, inclusive os evangélicos, parecem não saber o que fazer com o cadáver insepulto de Marx. Os intelectuais evangélico, em particular, lembram-me Amazias, que derrotou os edomitas, e assumiu os deuses deles como os seus. Alguns não gostarão disto que eu disse, mas sentir-me-ei como o profeta anônimo, registrado em 2Crônicas 25.15: “Então a ira do SENHOR acendeu-se contra Amazias, e ele lhe enviou um profeta, que disse ao rei: "Por que você consulta os deuses desse povo, deuses que nem o seu povo puderam salvar?”. Aliás, en pasant, impressiona-me ver como há gente que alega ter uma teologia sadia adotar “deuses” como Nietzsche, Freud, Marx, Piaget, etc. A desculpa empregada em todos os casos é sempre é a mesma: “Examinai tudo e retende o que é bom”. A mim parece-me falta de uma cosmovisão. Quando há uma cosmovisão, como Paulo pretendia que houvesse, nesta sua palavra para tudo examinarmos, há uma análise crítica pela perspectiva da Bíblia, e não uma tentativa de amoldar o evangelho à cultura humana. Nossa cosmovisão deve ser bíblica. À luz dela devemos analisar todas as propostas e tendências evangélicas, e não à luz de qualquer ciência nem à luz de seus resultados. Não podemos analisar a Bíblia à luz dos conhecimentos humanos, mas sim proceder de maneira oposta. A Bíblia examina tudo.
Voltemos ao neopentecostalismo. Considero-o como sendo um fenômeno teológico, mais que sociológico. Citei as massas marginalizadas como tendo sido o bolsão onde o neopentecostalismo vicejou, mas no fundo ele é o resultado de uma mudança de paradigma hermenêutico. Houvesse o bolsão social, mas não houvesse o novo paradigma hermenêutico, o neopentecostalismo não surgiria. Nele, este paradigma não é mais escriturístico, nem mesmo cristológico. Nosso entendimento, como cristãos conservadores, é que o eixo hermenêutico-teológico deve ser escriturístico e cristológico. Ou seja, centra-se nas Escrituras e tem Cristo como o cânon dentro do cânon, sendo ele, Cristo, o padrão para tudo aferir. O neopentecostalismo tem um eixo hermenêutico pneumatológico. Não é a mesma coisa. É uma diferença radical, que transforma, e para pior, toda a perspectiva teológica. Este novo eixo supera os aspectos denominacional e institucional. Por isto, o neopentecostalismo é supradenominacional. E extremamente personalista, com feudos eclesiásticos.
No trabalho O Pentecostalismo e o Pensamento Teológico Atual [3], Antonio Carlos de Melo Magalhães remete seus leitores ao início da mudança do axioma cristológico para o pneumatológico. No início, quando de seu surgimento histórico, os grupos carismáticos tiveram grande dificuldade em serem reconhecidos. Na realidade, foram aé mesmo combatidos. Magalhães lembra Müntzer e os anabatistas, que além de Cristo incluíam a atuação livre do Espírito Santo, manifestando-se este através de sonhos e da luz interior (ou convicção anterior), como ele menciona. Esta atuação livre do Espírito nivelava-se, em autoridade, às Escrituras. Tanto a Igreja Católica como Lutero se opuseram fortemente a esta posição. Cito Magalhães, literalmente: “Thomas Müntzer, ao defender uma experiência com Deus sem mediação, exceto a ação do Espírito, relativizava os dois pilares da teologia ocidental: o magistério eclesiástico e o magistério acadêmico, ambos presos pela fixação da palavra escrita” [4].
Os magistérios eclesiástico e acadêmico podem aprisionar as Escrituras, sabemos bem disto. Isto acontece quando a tradição se sobrepõe à Bíblia. Mas livrar-se deles é bastante problemático. Há uma dificuldade muito grande em colocar no homem, sem uma fonte externa, a fonte de autoridade religiosa. Cito, a propósito, um evento mais próximo de nós, o que foi gerado por Jim Jones, que redundou num massacre de quase mil fiéis, na Guiana, com um suicídio coletivo e a morte dos que se recusaram a optar pelo suicídio. Remeto-os ao livro O Culto do Suicídio, onde encontrarão mais detalhes. Mas Jim Jones liderou um grupo de fiéis, tudo com base na iluminação interior, ou convicção interior, ou voz do Espírito Santo, como quer que lhe chamem, a uma comunidade que fundou na Guiana. Narrando os bastidores do seu movimento, os autores trazem esta expressão, em sua obra: “Pegava da Bíblia, a que chamava ‘o livro preto’ e lançava-o ao chão, dizendo: Tem gente demais olhando para isso em vez de olhar para mim” [5].
Não estou a dizer que todo pregador carismático neopentecostal é um Jim Jones em potencial, mas mostrando como o abandono de uma fonte de autoridade exterior ao homem pode trazer sérios prejuízos. Na realidade, esta atitude me parece emblemática: afirmar-se outro eixo hermenêutico que não seja a Bíblia é descartar-se dela. Não necessariamente jogá-la no chão, mas descartar-se de sua autoridade e de seu peso. Isto é uma aventura teológica muito arriscada. E as conseqüências, assim nos mostra a história, têm sido funestas.
Magalhães nos recorda, também, o pietismo, principalmente como foi defendido por Jacob Spener. Sua preocupação era tornar vivo o texto e estabelecer o centro da reflexão teológica na experiência. No pietismo, o Espírito era a base de autoridade religiosa.
O neopentecostalismo é herdeiro e continuador desta tradição pneumatológica de origem pietista. Isto é inegável. Mas o grande problema, assumindo-se esta postura, é este: onde está a voz do Espírito? Ou, em outras palavras, por quem, exatamente, ele fala? Geralmente, a voz do Espírito está com o fundador ou dono da seita. Se o eixo hermenêutico são as Escrituras, não há muito problema. Bem nos diz Hebreus 1.1-2: “Há muito tempo Deus falou muitas vezes e de várias maneiras aos nossos antepassados por meio dos profetas, mas nestes últimos dias falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e por meio de quem fez o universo”. A Bíblia é a Palavra de Deus, Palavra do Pai. Lemos, ainda, em 2Pedro 1.20-21: “Antes de mais nada, saibam que nenhuma profecia da Escritura provém de interpretação pessoal, pois jamais a profecia teve origem na vontade humana, mas homens falaram da parte de Deus, impelidos pelo Espírito Santo”. Um ortodoxo ou conservador dirá que o eixo é a Bíblia, e lembrará, na argumentação, que ela tem o Espírito Santo como autor último. Mas quando as pessoas dizem que o Espírito fala através delas, e que suas palavras são revelação, como proceder?
A leitura bíblica neopentecostal é atomizada, expressão que devemos a Martin-Achard. Além de atomizada, isto é, fragmentária, de versículos isolados, é desaculturada, desairragada de seu contexto e usada alegoricamente. Usa-se a Bíblia, mas seu uso é problemático. No neopentecostalismo, ela não é normativa, mas indicativa. Em outras palavras, ela não é a norma de fé e prática, mas apenas subsidia as práticas do grupo. Seu uso é mais como pretexto que como texto que afirma a fé. Campos nos diz, em obra sua sobre o neopentecostalismo:
A Bíblia é muito mais um depósito de símbolos, alegorias e de cenas dramáticas ou até um amuleto para exorcizar demônios e curar enfermos do que a “palavra de Deus”, encarada por outros grupos protestantes como “regra única de fé e prática”, e para os fundamentalistas, “a regra infalível”. [6]
Cito, a propósito desta prática neopentecostal, um documento da Igreja Presbiteriana do Brasil, em análise sobre a Igreja Universal do Reino de Deus, a mais expressiva, ou pelo menos, a mais visível igreja neopentecostal. Diz o documento:
Assim, a repetição ou re-encenação de episódios e eventos bíblicos é utilizada como ferramenta hermenêutica, que lhes permite usar as Escrituras como base da sua prática. Nesta tentativa de repetir os episódios bíblicos, existe uma grande dose de alegorização dos textos bíblicos, e total desrespeito pelo contexto histórico dos mesmos, bem como a falta de distinção entre o que é descritivo na Bíblia, e o que é normativo para as experiências dos cristãos. Por exemplo, assim como Noé fez uma aliança com Deus, podemos nós também faze-la. Assim como Josué cercou as muralhas de Jericó e ao som das trombetas elas caíram, assim podemos “cercar” as muralhas das dificuldades e problemas e derrubá-las em nome de Jesus (usando uma trombeta de plástico e uma muralha de isopor). A vara que Moisés usou, o cajado de Jacó, os aventais de Paulo — todas estas coisas, e muitas outras tiradas das histórias bíblicas, se tornam tipos da utilização de apetrechos semelhantes, aos quais é atribuído (apesar de negações em contrário) algum valor espiritual na resolução dos problemas. [7]
Há mais uma questão a observar neste aspecto hermenêutico. Trata-se da incapacidade (ou facilidade com aceitam isto) dos neopentecostais de distinguirem entre o ruah do Senhor e a psiquê humana. Entre o Espírito de Deus e seus próprios pensamentos. Acreditando que Deus se revela no íntimo (“Deus me falou”), o neopentecostal, até propositadamente, entende sua vontade pessoal com a vontade de Deus. Minha dissertação de mestrado teve como título Os Sofrimentos do Messias e Sua Aplicação Para Nosso Tempo – Uma Avaliação da Teologia da Prosperidade. Para sua confecção precisei ler dez dos livros de Keneth Hagin, pai da teologia da prosperidade. À página 118 fiz esta observação:
Outro problema em Hagin: como boa parte dos carismáticos, ele confunde intuição com revelação. “Captei um vislumbre” (que é algo que acontece com todos, enquanto pensam em algo) se torna “esta revelação”. A subjetividade humana se torna a objetividade de Deus. Mas seu problema básico é desviar-se da autoridade normativa das Escrituras e colocar-se como o padrão aferidor dela [8].
Na realidade, no neopentecostalismo, a palavra do fundador ou proprietário da seita supera o valor da Escritura. E exatamente por se desviar do eixo das Escrituras, há uma tendência muito grande ao exótico e ao estrambótico. Num livro seu sobre predestinação, um pastor deste movimento analisava a palavra que Deus dirigiu a Jó: “Talvez você conheça, pois você já tinha nascido! Você já viveu tantos anos!” (Jó 38.21). Deus está fazendo perguntas a Jó sobre a criação. O estilo é poético. A poesia não é literatura linear, objetiva. Sua linguagem é conotativa e não denotativa. Quem tenha feito Exegese de Antigo Testamento na Faculdade Teológica Batista de Campinas deve ter ouvido o professor falar dos diferentes estilos literários na Bíblia e como analisar cada um. O escritor neopentecostal aqui citado lê e interpreta poesia como se esta fosse dissertação e desta maneira conclui que todos nós já existimos antes, defendendo a idéia da preexistência de todos os homens. Isto está mais para reencarnação do que para a preexistência das almas de Platão. Um versículo isolado, numa leitura atomizada, desprezando o mais rudimentar conhecimento hermenêutico, lega uma doutrina (porque a palavra dos donos das seitas é incontestável) aos seus seguidores. Tudo isto por se ignorar princípios hermenêuticos rudimentares e principalmente a regra fundamental, de que a Bíblia interpreta a própria Bíblia. Não há nada mais que comprove tal teoria, mas a leitura fragmentária aliada ao açodamento próprio de quem precisa de notoriedade produz esta aberração doutrinária.
Em conexão com isto, volto ao trabalho de Wemerson Marinho, ao falar ele sobre a autoridade das Escrituras:
Os neopentecostais afirmam que a Bíblia é a Palavra de Deus e, com isto, nós concordamos. Mas para eles, a palavra dos "profetas", dos visionários, também é a Palavra de Deus. E, por isto, baseiam suas vidas e suas doutrinas também em visões, "novas revelações" e em experiências místicas.[9]
Por mais paradoxal que pareça ser, para os neopentecostais, a Bíblia é a Palavra de Deus, mas não é fonte de autoridade. Esta reside no indivíduo, não no indivíduo em geral, mas nos líderes do movimento. Veja-se esta palavra de John Wimber:
Algumas verdades da Bíblia só podemos compreender depois de certas experiências. Comprovei isto em minha própria experiência. Quando eu não tinha sido curado, não podia entender muitas passagens da Bíblia sobre cura, como agora. Desta maneira, Deus usa nossas experiências para nos dar uma melhor compreensão do que as Escrituras ensinam [10].
É a experiência que interpreta a Bíblia, nesta visão neopentecostal. A interpretação é privada e individual. O sentido deixa de ser o que é e passa a ser o que pessoa quer que seja. Veja-se esta citação do livro The Holy Spirit and You:
Dedica parte do teu tempo em ler a Bíblia e espera que o Espírito te fale de dentro de suas páginas. Quando tiveres feito isto, prepara-te para um compreensão surpreendente e interpretações inesperadas! O Espírito Santo pode usar as Escrituras de forma muito livre e alegórica quando lhe apraz. Pode ser que veja um detalhe da descrição do templo de Jerusalém ou um detalhes em um ponto inesperado em uma lista de nomes e de repente tragam para ti um significado espiritual [11].
Cito, ainda, Paulo Anglada, ilustre pastor presbiteriano. Ele alista as correntes espiritualistas de interpretação das Escrituras e entre elas a que denomina de “Hermenêutica Intuitiva”. Diz ele:
Os defensores da interpretação intuitiva ou devocional, também chamados de impressionistas, identificam a mensagem do texto com os pensamentos que lhes vêm à mente ao lê-lo aqui podem ser incluídos também os místicos, tais como os assim chamados reformadores radicais, com sua ênfase na iluminação interior. Uma versão moderna do método de interpretação intuitiva pode ser verificada na prática de abrir as Escrituras ao acaso para pregar, ou encontrar uma mensagem para uma ocasião específica, sem o devido estudo do texto e consideração do contexto [12].
Vê-se que é não mais o que o texto diz, mas o que intérprete quer que o texto diga. O leitor é o eixo hermenêutico. Esta postura é perigosa. As pessoas vêem o que querem na Bíblia e usam-na como se fosse um jogo de runas, ou um horóscopo bíblico, onde sacam o que lhes interessa.
Todos os grupos evangélicos declaram que a Bíblia é a Palavra de Deus. Nunca vi um grupo que negue isto. O problema é a colocação, lado a lado, de outras fontes de autoridade, como Marinho cita aqui. Não podemos colocar nada ao lado das Escrituras nem subordinar as Escrituras a visões e revelações. A finalidade do padrão hermenêutico é zelar pela certeza do estudo ou da doutrina. Sem um padrão correto corre-se o risco de desvio. Diante do movimento neopentecostal é necessário afirmar-se isto, com firmeza e sem titubeios: a autoridade em matéria de doutrina, práticas e posições é a Bíblia, Palavra de Deus infalível. O desprezo que estes líderes nutrem para com a Hermenêutica faz parte de uma estratégia. Tais pessoas não querem ser limitadas. Elas têm um projeto pessoal e a forma como se valem da Bíblia dá suporte ao seu projeto. Há muito de megalomania nesta postura. Uma pastora neopentecostal, por exemplo, em suas prédicas, sempre usa a expressão “a palavra”. Repete-a várias vezes. Mas não cita a Bíblia. Custei a entender que por “a Palavra” não se referia ela à Bíblia, mas à sua palavra pessoal. O que ela dizia era inquestionável. O que ela dizia era Palavra de Deus.
Um dos mais sérios problemas para o estabelecimento de uma interpretação bíblica correta reside aqui. As pessoas não querem estudar e aprender. Elas querem falar e comandar. Elas se tornam o padrão. Há uma tendência muito grande a interpretar a Bíblia à luz de insights, vislumbres (como Hagin) e experiência pessoal. MacArthur Jr. traz esta expressão em um de seus livros: “Um crente carismático escreveu na capa interna de sua Bíblia: ‘Não me importa o que a Bíblia diz. Eu tive uma experiência’” [13].
Importa o que a Bíblia diz. E importa a maneira como nos aproximamos dele. Ela é Palavra de Deus, inspirada, inerrante, autoritativa, fonte e base de autoridade em matéria de religião. Não pode ser interpretada particularmente, e à parte da comunidade dos fiéis, que é o corpo de Cristo, desprezando-se dois mil anos de cristianismo. Está se reinventando o evangelho, redescobrindo Deus e assumindo-se o copyright do Espírito Santo. É preciso um pouco mais de humildade e de subordinação à Bíblia por parte de algumas pessoas.
Parte do equívoco hermenêutico neopentecostal reside em não distinguir entre iluminação e inspiração. Nós não somos inspirados. Só os autores bíblicos o foram. Só eles tiveram o sopro de Deus. Nós somos iluminados. Nós não estamos escrevendo uma nova revelação. A nós compete a submissão à Bíblia. Somos parte do corpo de Cristo e compete-nos também subordinar projetos pessoais e aspirações ministeriais a este corpo, à Igreja. Há muito free lance e livre atirador por aí. Em A Igreja Eletrônica e Seu Impacto na América Latina, Assmann comenta que um tele-evangelista neopentecostal “para sua residência erigiu um palacete avaliado em 650.000 dólares” [14]. Isto é um absurdo. Em março, indo de Paranaguá, onde falei num Congresso de Homens, para Curitiba, de onde viria para Campinas, tive como motorista um irmão da PIB de Paranaguá, egresso de uma denominação neopentecostal, onde inclusive fora obreiro. Ele mencionou, desgostoso, as reuniões de pastores do movimento, nas quais eles eram avaliados pelo desempenho econômico, a capacidade de levantar ofertas. O líder nacional chegava em uma BMW blindada e cercado de seguranças. Não resvalarei para a polêmica rasteira, nem acusarei os neopentecostais de desonestos, mas advirto para um perigo: quando se domina a Igreja, em vez de submeter-se à autoridade dela, abusos acontecem com facilidade. Isto será observado em outra palestra, ao abordarmos a eclesiologia neopentecostal. Mas quando o homem está acima da Escritura, a ética desaparece com facilidade. A eclesiologia é produto de interpretação bíblica. Numa interpretação que subordina a Bíblia ao homem os riscos avultam. Subordinemo-nos à Bíblia e evitemos interpretações particulares. É bem mais seguro.
[1] MARINHO, Wemerson: Pontos Discutíveis do Movimento Neopentecostal, trabalho que me veio às mãos, pela Internet. O autor é responsável por uma congregação da IPB em Ipatinga, MG, diretor da Revista Renascer, e atua num projeto evangelístico através do rádio que fala a 30 000 pessoas aproximadamente todos os dias.
[2] BOISSET, Jean. História do Protestantismo. S. Paulo: Difusão Européia do Livro, 1971, p. 26.
[3] MAGALHÃES, Antonio de Carlos Melo, in Estudos de Religião, vol. 15, Universidade Metodista de S. Paulo, p. 68
[4] Ib. ibidem, p. 69.
[5] KILDUFF, Marshall e JAVERS, Ron. O Culto do Suicídio – O Massacre da Guiana e a História Secreta da Seita do Templo do Povo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979, p. 27.
[6] CAMPOS, Leonildo. Teatro, Templo e Mercado. Petrópolis: Vozes; S. Paulo: Simpósio Editora; S. Bernardo do Campo: Umesp, 1999, p. 82.
[7] Comissão Permanente de Doutrina da Igreja Presbiteriana do Brasil. Igreja Universal do Reino de Deus – Sua Teologia e Sua Prática. S. Paulo: Editora Cultura Cristã, 1997, p. 28
[8] Esta observação de Hagin se encontra em seu livro O Nome de Jesus, Rio de Janeiro: Graça Editorial, 1988, p. 32.
[9] MARINHO, op. cit.
[10] BÜHNE, Wolfgang. Explosión Carismática. Terrasa (Espanha): CLIE, 1996, p. 27.
[11] La Renovación carismática – Una Interpretación Reformada del Movimiento Neopentecostal – Grand Rapids: Publicação do Sínodo da Igreja Cristã Reformada, 1977, p. 91
[12] ANGLADA, Paulo. Sola Scriptura –A Doutrina Reformada das Escrituras. S. Paulo: Editora Os Puritanos, 1998, p. 129.
[13] MACARTHUR JR. Os Carismáticos. S. Paulo: Editora Fiel, 1981, p. 54
[14] ASSMANN, Hugo. A Igreja Eletrônica e Seu Impacto na América Latina. Petrópolis: Vozes, 1986, p. 37
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