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Neopentecostalismo 4 - A Eclesiologia Neopentecostal

Neopentecostalismo 4 - A Eclesiologia Neopentecostal

 

Conferência teológica preparada pelo Prof.. Isaltino Gomes Coelho Filho para a Faculdade Teológica Batista de Campinas, 16  de  abril de 2004

 

 

            É óbvio que não se procederá aqui a uma análise exaustiva da eclesiologia neopentecostal. E o que se fará terá certa dose de dificuldade. Já nos ficou patente que o neopentecostalismo não é uma denominação, mas um movimento eclético, com práticas as mais diversas, sem uma fonte de autoridade centralizadora. Sua alegada fonte é a voz do Espírito, mas a leitura de obras de seus expoentes mostra que esta voz se identifica com a voz dos líderes ou dos donos das seitas. Nas palestras anteriores analisamos alguns de seus pontos, sendo o anterior a este foi a questão cristológica. A ordem tem sentido. A hermenêutica produz uma determinada visão de Deus Pai, de Cristo, do Espírito Santo, e se refletirá no conceito de Igreja.

 

            Que entendemos ser “Igreja”? A resposta mais precisa, em nosso contexto teológico, nos vem da Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira. Diz-nos ela:

 

Igreja é uma congregação local de pessoas regeneradas e batizadas após profissão de fé. É nesse sentido que a palavra “igreja” é empregada no maior número de vezes nos livros do Novo Testamento (1). Tais congregações são constituídas por livre vontade dessas pessoas com a finalidade de prestarem culto a Deus, observarem as ordenanças de Jesus, meditarem nos ensinamentos da Bíblia para a edificação mútua e para a propagação do evangelho. As igrejas neotestamentárias são autônomas, têm governo democrático, praticam a disciplina e se regem em todas as questões espirituais e doutrinárias exclusivamente pela Palavra de Deus, sob a orientação do Espírito Santo. Há nas igrejas, segundo as Escrituras, duas espécies de oficiais: pastores e diáconos. As igrejas devem relacionar-se com as demais igrejas da mesma fé e ordem e cooperar, voluntariamente, nas atividades do reino de Deus. O relacionamento com outras entidades, quer sejam de natureza eclesiástica ou outra, não deve envolver a violação da consciência ou comprometimento de lealdade a Cristo e sua Palavra. Cada igreja é um templo do Espírito Santo. Há também no Novo Testamento um outro sentido da palavra “igreja” em que ela aparece como a reunião universal dos remidos de todos os tempos, estabelecida por Jesus Cristo e sobre Ele edificada, constituindo-se no corpo espiritual do Senhor, do qual ele mesmo é a cabeça. Sua unidade é de natureza espiritual e se expressa pelo amor fraternal, pela harmonia e cooperação voluntária na realização dos propósitos comuns do reino de Deus [1].

 

            O neopentecostalismo não deu uma definição objetiva de Igreja, mas suas práticas nos mostram como seus líderes a entendem. Não está verbalizada, mas a prática mostra como a entendem. Vamos levantar algumas questões, aqui,  não a partir da Declaração Doutrinária, que foi citada para mostrar nossa posição. Vamos levantar as questões a partir da prática do Novo Testamento, como podemos ver em algumas passagens bíblicas. E considerar as atitudes que nos chegam como uma visão eclesiológica neopentecostal.

 

            Eis a primeira questão: quem toma as decisões gerais na Igreja? Em Atos 6.1-6, a Igreja está em um grande momento espiritual, quando surge o primeiro dos muitos casos de fofoca ao longo da história eclesiástica. Há um problema para resolver. Como sua liderança o equacionou? A palavra dos apóstolos foi esta: “Escolhei, pois, irmãos, dentre vós...”  (v. 3). A escolha dos sete não coube aos doze, mas à multidão, como lemos no versículo 2. O povo, como um todo, foi chamado a participar da administração da Igreja. Da mesma maneira, as cartas de Paulo, com princípios e sugestões sobre e vivência eclesiológica, não se dirigem ao pastor ou à diretoria, mas à Igreja como um todo. As queixas, ele as dirige à Igreja como um todo, como vemos mais detidamente em 2Coríntios e em Gálatas, em várias passagens. A forma de governo na Igreja neotestamentária é participativa e não monárquica até mesmo por causa de um princípio doutrinário: o sacerdócio universal de todos os salvos. Todos os membros da Igreja, independente de seu valor social e do seu poder aquisitivo, têm o mesmo peso decisório. O Espírito Santo não é mais de um que de um de outro  e é ele quem dirige a Igreja. Ele se manifesta na Igreja, e não por uma elite. Pode haver pessoas mais esclarecidas, com mais visão de vida cristã, e de vida secular, mas a responsabilidade e o privilégio pertencem a todos. A Igreja não é do clero, mas do povo.

 

            Já vimos que o neopentecostalismo sacerdotaliza a Igreja, com a idéia de pessoas que são iluminadas, mais que outras. Já disse antes que o pastor tradicional, principalmente, se for de um sistema congregacional, tende a sair ou a mudar os estatutos da Igreja para se firmar. A eclesiologia neopentecostal é autoritária, centralizadora, nas mãos de um grupo ou de uma pessoa. Seu centro decisório está radicado no líder, figura inquestionável. Pieratt conta em um de seus livros sobre uma declaração de Hagin, ao receber a sexta visão de Jesus, que “se uma igreja se recusasse a aceitar seu ministério, Deus iria retirar dela seu candeeiro” [2]. A eclesiologia é sacerdotal, na forma de ver o pastor. Tende a superdimensionar a figura do líder. Ele é o dono da Igreja. Quem estende a mão contra ele morre.

 

 O sistema congregacional tem uma grande vantagem (outros sistemas como o presbiterial também o têm), que é o colocar a autoridade final na Igreja. Em Atos 15.22 vemos que a liderança e a Igreja chegaram a uma conclusão, após debates: “Então os apóstolos e os presbíteros, com toda a igreja, decidiram escolher alguns dentre eles e enviá-los a Antioquia com Paulo e Barnabé. Escolheram Judas, chamado Barsabás, e Silas, dois líderes entre os irmãos”. A autoridade decisória pertence à Igreja. E ela é todos. O pastor é um servo de Deus e da Igreja, não seu dono. No neopentecostalismo, o pastor é um proprietário, não um servo.

 

            Uma segunda questão eclesiológica reside no papel do pastor. Quem é ele? Como ele é escolhido? Numa igreja tradicional, o pastor é alguém que é recomendado por uma igreja a uma escola teológica. Após o curso será examinado por um grupo de pastores que o darão como apto ou não para o exercício do ministério, atendendo este grupo ao pedido de uma igreja local. Mais uma vez, vemos o primado da Igreja. Está com ela a autoridade e ela reconhece autoridade num futuro pastor com base no conhecimento de seu caráter e na aprovação emitida de outros pastores, num concílio convocado por uma Igreja. A Ordem dos Pastores não pode consagrar um pastor, independente do pedido de uma Igreja. No nosso sistema, a Igreja (e Igreja é o povo) é que tem a palavra final. O sistema tem falhas mais por causa de pessoas que usam os concílios examinatórios para exibir sua erudição ou massacrar candidatos, mas em si é coerente, é razoável. Mas, como sucede com a escolha de um pastor no movimento carismático? As palavras de Marinho, já citado em outras palestras, cabem aqui:

 

Enquanto nas igrejas históricas os candidatos ao ministério pastoral passam por uma preparação e zelosa avaliação quanto ao caráter e chamado, no movimento neopentecostal, qualquer um pode ser "pastor". Os critérios baseiam-se em saber pregar, falar línguas estranhas, ter sido revelado, etc. e, por esta razão, muitos líderes neopentecostais são tão desvirtuados das caracteres de um verdadeiro homem chamado ao ministério. Poucos são aqueles que tem alguma preparação teológica. Segundo Paulo, as características de um homem apto para o ministério devem estar relacionadas ao seu caráter irrepreensível, com sua capacidade de ensinar, com sua boa administração do lar, com sua competência nos relacionamentos, com sua boa conduta para com o mundo, etc. (1Tm 3). Além do mais cada pastor neopentecostal é livre pensador, ou seja, pode pregar o que acredita, sem a supervisão de ninguém, o que favorece ao surgimento de tendências heréticas e inovações doutrinárias no meio deles. E quando são questionados por alguma autoridade, se revoltam e abrem suas próprias igrejas dirigindo-as como bem lhes apetece [3].

 

            A Igreja é uma massa de pessoas que recebe liderança, mas que não opina sobre a liderança. Esta não é serviçal, mas senhoril. Isto traz alguns exageros, desde a glorificação de um líder humano até a pulverização doutrinária, pois o líder, principalmente no neopentecostalismo autônomo, não tem a autoridade da Igreja sobre si, mas é ele que tem autoridade sobre ela. Os dons, que nas cartas paulinas são para toda a Igreja, passam a ser de uma elite. Temos uma eclesiologia sacerdotal, no sentido de alguém tem munus, autoridade, e os demais não.

 

            Sobre a glorificação do líder vemos alguns absurdos que chocam até quem se acostumou a eles. Sabemos que estes acontecem no movimento tradicional, mas o nível em que sucedem no neopentecostalismo é doentio. Veja-se esta frase de Morris Cerullo: “Você não está olhando para Morris Cerullo – você está olhando para Deus, está olhando para Jesus Cristo” [4].  Tais líderes assumem para si uma posição espantosa que ou beira à megalomania ou à completa insanidade. Um pastor, em Salvador, colocou um letreiro corrediço em sua Igreja: “Fulano de Tal (o nome dele) tu és meu filho amado em quem me comprazo” [5]. O foco é colocado no líder da Igreja. O pastor é um semideus, mais que um homem. As palavras do Batista deveriam ser lembradas: “Convém que ele cresça, e que eu diminua” (Jo 3.30). O pastor não pode aparecer mais que Jesus. O endeusamento humano é pecado.

 

Mais questões que nos mostram o papel do líder, no neopentecostalismo. Uma pastora neopentecostal disse pela televisão que recebera uma revelação do Senhor de que ela precisava ir aos quatro pontos cardeais em seus extremos geográficos para ungir o Brasil. Só assim este teria salvação. A pastora tomou o lugar de Jesus. Enquanto que numa igreja tradicional o pastor deve se subordinar à Bíblia, no neopentecostalismo, desde que a Bíblia não é autoritativa, o pastor a completa ou revoga. Veja-se esta citação de Jorge Tadeu, da Igreja Maná:

 

Temos de deixar a nossa religiosidade no chão para sermos mais utilizados por Deus. Recebi isto por revelação divina: Deus me disse que hoje o Senhor permite que um homem tenha várias mulheres, desde que com isso sirva mais a Deus.[6]

 

            Resumamos: a autoridade do pastor é tão absoluta, que ele ensina o oposto da Bíblia, apologiza a poligamia, que é crime, e diz que é revelação.

 

           

            Uma terceira questão: quem define o projeto da Igreja? Talvez este ponto não desperte atenção em alguns dos tradicionais. Isto porque muitas igrejas e muitos pastores não têm projeto algum. O pastor apenas realiza cultos, esperando que alguma coisa aconteça. É um erro. Um pastor e uma Igreja precisam ter um projeto para saber para onde vão e por onde devem andar. Mas no neopentecostalismo, quem define o projeto?  Na visão eclesiológica de haver alguém iluminado, as pessoas não participam do projeto. O líder sabe o que é bom para os demais. E estes devem obedecer. Mas “na multidão de conselheiros há sabedoria”, diz Provérbios 11.14. O entrave à participação da congregação, na visão neopentecostal, é que esta não tem a linha direta com Deus, como seus líderes. A promessa encontrada em Joel e que Pedro identificou em Atos diz que o Espírito seria derramado sobre toda a carne. A Igreja é, toda ela, uma comunidade igual aos olhos de Deus, tanto em termos de valor pessoal como em termos de participação. Ela diz respeito a todos e todos deveriam se envolver com ela. Este autoritarismo eclesiástico enche os olhos de pastores fracos, sem liderança, sem projetos, que podem ser questionados e assim se sentem encantados com o modelo eclesiológico neopentecostal. Um pastor dizia, há tempos, que o povo só atrapalha. Ouvi este discurso nos tempos de Geisel...

 

            O grande problema é que o autoritarismo eclesiástico, assim como o político, militar e de qualquer tipo, leva ao florescimento de absurdos. A defesa da poligamia feita por Jorge Tadeu é um exemplo. Num acampamento batista onde estive como preletor, as senhoras da cozinha (o melhor lugar de um acampamento) me disseram que lá esteve a Pra. Valnice com suas auxiliares. Ela fizera um voto de rapar a cabeça pela conversão de uma conhecida sua. Todas as pastoras tiveram que rapar a cabeça. Uma se recusou e foi tão marginalizada pelas demais que até se recusaram a comer com ela, que teve que fazer as refeições à parte [7]. Um projeto pessoal teve que ser respaldado por todos e quem não o respaldou foi imediatamente hostilizado. O autoritarismo leva a mesquinharias deste tipo. Não se pode contestar o dono da seita. Dispenso-me de alistar outros absurdos, mas vou entrar no quarto aspecto, que é um desdobramento deste e que nos mostra para onde o autoritarismo leva com a ausência do povo num projeto eclesiástico, a questão das finanças.

 

            Então chegamos a quarta questão. Quem administra as finanças da Igreja? A quem se prestam as contas? Numa igreja tradicional, há uma tesouraria eleita pela Igreja, que cumpre um programa votado pela Igreja, e que presta suas contas a uma comissão eleita pela Igreja. No Cambuí ainda temos uma contabilidade externa.  No momento da devolução dos dízimos e ofertas sempre digo que aquele momento é para os membros da Igreja, dispensados dele os visitantes, e explico como se administra o dinheiro na Igreja.

 

            Hanegraaff, em obra já citada nestas palestras, nas notas bibliográfica de seu livro, a partir da página 411 alista alguns casos de malversação de dinheiro provindo de ofertas. Um dos líderes é citado, nominalmente, como tendo declarado (e Hanegraaff afirma ter o vídeo com sua declaração) que jogava fora os pedidos de oração que vinha com as ofertas, e recolhia apenas o dinheiro. Aliás, a pessoa precisa ser muito crédula para pensar que o governo de Israel permitiria que gente de todo lugar subisse os chamados lugares sagrados com dezenas de sacos de pedidos de oração e os queimasse em fogueiras nestas lugares. Mas fujamos deste ponto. A questão é: quem administra o dinheiro? 

 

            Este não vem apenas de dízimos e ofertas, o que é bíblico e estabelecido pelas Escrituras, mas é extorquido em nome de Deus. Hugo Assmann transcreve, em uma obra sua, a mensagem pregada por R. R. Soares, oferecendo uma rosa branca ungida que curaria desde o vício em drogas até perna gangrenada que deixou de ser amputada por causa do uso da rosa. Esta era enviada de graça, mas uma oferta pela rosa era pedida [8]. Era de graça, mas havia um preço.

 

            Na mesma obra, Assmann mostra as maneiras de se arrecadar dinheiro. Ele dedica um tópico ao tema “Técnicas mais comuns para angariar fundos”. Ele apresenta seis das mais comuns, que são:

     

(1)   A venda de espaço sagrado – São as campanhas para construção de seus gigantescos centros televisivos. Cita a Torre de Oração, de Oral Roberts, e a Catedral de Cristal, de Robert Schuller.

(2)   A venda de tempo de oração – Em troca de uma oferta, um tempo especial lhe será dedicado em oração intercessória. Em outras palavras, dependendo de quanto for a oferta, maior ou menor o tempo de oração.

(3)   O convite para entrar no “Clube” – É uma prática mais americana, como o “Clube dos 700”, de Pat Robertson, e a Família-Chave de Oração, de Rex Humbard. Este foi o estranho caso de um neopentecostal que faliu. Gastou mais do que arrecadou.  Assmann cita um movimento católico neopentecostal, a Associação do Senhor Jesus, dos católicos carismáticos, de Campinas.

(4)   Venda de objetos religiosos – Há medalhas com versículos bíblicos, os lenços com a impressão da mão curadora de Oral Roberts, Bíblias com dedicatórias, cassetes que registram as últimas revelações de Deus dadas ao pregador, etc.

(5)   Os apelos pessoais que simulam intimidade – A pessoa é convidada a fazer contato porque receberá uma resposta pessoal, aparece na televisão um pequeno grupo de atendentes telefônicos sorridentes, mostrando que a pessoa será bem atendida, criando um clima de cordialidade e de intimidade. A mesma técnica do vendedor que pede nosso nome para nos tratar como amigo de longa data.

(6)   A ameaça de ter que suspender o programa por falta de recursos – O programa tem abençoado a tantos! Será uma pena. Sob chantagem emocional, o risco de perder o contato com seu guru espiritual, a pessoa acaba contribuindo.

 

Não está na relação de Assmann, mas outro método empregado é a colocação de um valor determinado em um envelope com o nome da pessoa, nome que será levada para Israel, para se orar por ela. Tivemos esta experiência em Belém, com uma senhora que trabalhava em nossa casa. Ela era da IURD e naquela época, em 1999, estavam cobrando 100,00 reais para se levar o nome da pessoa para oração no monte Sinai. Como era uma igreja de periferia, ninguém pôde atender o pedido. O pastor procurou a pessoa, Rosa, e disse que para ela faria um desconto, deixaria por vinte reais, mas que ela não contasse para ninguém. Mas procurou outras pessoas com a mesma conversa do desconto e que não contassem para ninguém.

 

Há mais técnicas, mas em todas elas se observa uma absoluta ausência de ética. Os fiéis não são respeitados, a questão do dinheiro é tratada com ganância e desonestidade. Não há relatórios, não há auditoria. O que mais me impressiona negativamente é a absoluta ausência de escrúpulo no levantamento e na utilização de recursos. No estilo de uma eclesiologia autoritária, o povo não tem acesso à contabilidade da Igreja. E neste ponto, de recursos financeiros, as igrejas precisam ser cristalinas e de absoluta transparência.

 

Uma quinta questão. Pensei em colocar estes pensamentos na questão da liturgia, porque dizem respeito ao culto, mas é aqui que deve ficar na área da eclesiologia, porque é a compreensão do que seja Igreja. A visão neopentecostal é que “Igreja é um lugar aonde vamos e aonde acontecem coisas”. O antigo bordão da IURD mostra isto: “Igreja Universal, onde o milagre é uma coisa natural”. É a questão da luta contra o demônio. No livro Teatro, Templo e Mercado, [9] Leonildo Campos mostrou a Universal como um lugar onde estas três instituições se encontram, o teatro, o templo e o mercado. A dramatização, a Igreja vista e usada como teatro,  é ponto forte nos cultos neopentecostais. E a luta contra o demônio acabou tomando lances teatrais e pouco honestos e é bem teatralizada. Campos nos fala de uma jovem que confessou estar fazendo papel de pomba-gira em várias igrejas da IURD. Este era seu emprego. O Jornal da Tarde, de 12.10.90 trouxe reportagem em que dois homens confessaram que eram pagos para simular doenças ou possessões demoníacas. Macedo processou o jornal, mas a ação foi considerada improcedente. [10]

 

Mas fiquemos na questão da batalha espiritual. Ela existe. A Bíblia diz isto: “Estejam alertas e vigiem. O Diabo, o inimigo de vocês, anda ao redor como leão, rugindo e procurando a quem possa devorar. Resistam-lhe, permanecendo firmes na fé, sabendo que os irmãos que vocês têm em todo o mundo estão passando pelos mesmos sofrimentos”  (1Pe 5.8-9). O problema é que houve um superdimensionamento do demônio nos cultos e na própria eclesiologia em geral. Quase que todos os neopentecostais optaram pela teologia da batalha espiritual. Isto enche os olhos do povo, lutar contra demônios e vencê-los. Eles são culpados por tudo de ruim que nos acontece. Vencê-los, num momento teatral, é resolver todos os nossos problemas. É vingar-nos de quem nos causou tantos males.  Mas isto traz abusos. Um deles é que os demônios passaram a ter lugar especial no culto.  Citando Paulo Romeiro:

 

Talvez nenhum outro assunto tenha fascinado tanto os evangélicos nos últimos tempos quanto o da batalha espiritual. De repente, o diabo moveu-se para o picadeiro e passou a ser o centro do espetáculo. Infelizmente, o fascínio pela guerra espiritual trouxe consigo o desequilíbrio teológico, o sensacionalismo e uma avalanche de revelações extra e antibíblicas em relação a esse tema. [11]

 

            Com isto, a Igreja tem buscado saber sobre o Diabo fora da Bíblia. Alguns neopentecostais fizeram um mapeamento de demônios territoriais, mostrando seus nomes e onde reinam. Algumas dessas revelações foram conseguidas de demônios submetidos a juramento, depois de amarrados em nome de Jesus. As pessoas estão aceitando, nas igrejas, aos gritos de “aleluia!”, revelações vindas de demônios! Como pode ser isto? Junte-se a vontade de ouvir novidades, com o volume de revelações extrabíblicas com o estrelismo do demônio, e temos declarações como esta:

 

O umbigo é muitas vezes um ponto de entrada para o poder demoníaco. Ele poderá usá-lo, descendo pelo cordão umbilical antes ou durante o nascimento. Os espíritos malignos já me disseram que entraram através do sêmen masculino na mulher, e daí pelo cordão umbilical para dentro da pessoa a quem eu ministrava.[12]

 

            Um pastor ensina como verdade algo que, pretensamente, teria recebido de um demônio. Ou é muito ingênuo ou é ingênuo demais. E uma instituição evangélica, que se propõe a evangelizar empresários, edita isto e divulga como verdade teológica.

 

            Daí se chega a invocação do demônio nos cultos neopentecostais. “Comece a se manifestar, Exu Caveira” e “Manifeste-se Exu Tranca-Rua” são frases ouvidas em programas neopentecostais. Seria bom estabelecermos algo: não existem exus, nem pombas-giras, nem zé-pelintras. Está se legitimando um pretenso e imaginado panteão de deuses africanos. Há demônios, apenas. Mas pedir que se manifestem em um culto evangélico é muito.  E colocá-los como foco de atenção na eclesiologia é aberração. O centro do nosso culto deve ser Deus. E a eclesiologia deve olhar para a Igreja como o corpo de Cristo, não como igreja como um teatro ou uma arena. A vida da Igreja é mais que exorcismos no culto. É a peregrinação no mundo, com testemunho, vivência cristã e caráter nos relacionamentos sociais.

 

            Poderia apresentar mais aspectos. Tornaria longa esta exposição e, na realidade, me esgota, me deprime, efetuar avaliações apenas negativas de algo. Perguntará alguém: “Nada presta no neopentecostalismo? Por que não faz avaliações positivas”.  Respeito, em neopentecostais, o interesse por realidades espirituais, o desejo de ver o reino de Deus triunfar, o desejo de uma vida vitoriosa. Mas desde que a Bíblia é abandonada, revelações adicionais de homens lhes são adicionadas, desde que não há controle nem avaliação da liderança, desde que a vida vitoriosa é dimensionada em ter coisas, saúde e problemas resolvidos, desde que o culto à personalidade se instala, o movimento perde seu valor. Sua liderança será responsabilizada diante de Deus por desviar o povo da Bíblia. Quanto às avaliações positivas, lembremos de algo, de nossa história. Temos sido depreciados, inclusive por alguns de nosso meio. Os tradicionais trouxemos o evangelho para este país. Tivemos templos apedrejados, pastores aprisionados, pregadores espancados, bíblias queimadas em praça pública. Nem sepultar os nossos mortos podíamos, pois os cemitérios eram da Igreja Católica. Plantamos árvores à sombra das quais andam pessoas que, no mínimo, deveriam nos respeitar. E, que para pedir nosso respeito, deveriam mostrar ética e caráter. Temos currículo, e não B.O. Temos amor pela Palavra de Deus e em função dela estruturamos nossas igrejas, nossa pregação e nossos cursos teológicos. Somos herdeiros da Reforma: só a graça, só a fé, só a Escritura. Pessoalmente respeito obreiros sérios, que mostram isso, que não ostentam sinais de riquezas adquiridas às custas do povo, que sejam zelosos por sua vida e amem a Palavra de Deus. E tudo que posso dizer e, creio, devemos esperar, é que os neopentecostais se voltem para a Bíblia, cessem o culto ao homem, e deixem as revelações extrabíblicas.  Isto será uma bênção para eles, para nós e para o mundo.

 

 



[1] Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, item VIII, omitindo-se as passagens bíblicas

[2]  PIERATT, Alan. O Evangelho da Prosperidade. S. Paulo: Edições Vida Nova, 1993, p. 47

[3] MARINHO, Wemerson: Pontos Discutíveis do  Movimento Neopentecostal, trabalho que me veio às mãos, pela Internet. Esta afirmação está no tópico 1.c., “O ofício ministerial neopentecostal”.

[4] HANEGRAAFF, Hank. Cristianismo em Crise. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus,  1996, p. 13.

[5] Este episódio me foi contado por um diácono batista em Salvador, em cuja casa estive almoçando. O letreiro foi retirado depois de muito alvoroço entre os próprios membros da Igreja que acharam que o pastor fora longe demais.

[6] ROMEIRO, Paulo. Evangélicos em Crise. S. Paulo: Editora Mundo Cristão, 1995, p. 42. A declaração, segundo Paulo Romeiro, está gravada em vídeo, no Instituto Cristão de Pesquisas.

[7] Este episódio me foi contado pelas senhoras da cozinha do Acampamento da Igreja Batista Central de Campinas.

[8] ASSMANN, Guho. A Igreja Eletrônica e Seu Impacto na América Latina. Petrópolis: Vozes, 1986, ps, 101 em diante.

[9] CAMPOS, Leonildo Silveira. Teatro, Templo e Mercado. Petrópolis: Vozes; S. Paulo: Simpósio Editora e Universidade Metodista, 1997.

[10] Sentença Processo 1620/90, 1º Ofício Criminal Regional Santana, SP, pp. 6 e 7.

[11] ROMEIRO, Paulo. Evangélicos em Crise. S. Paulo: Mundo Cristão, 1995, p. 113.

[12] SUBRITZKY, Bill. Demônios Derrotados.  S. Paulo: ADHONEP, p. 134

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