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Neopentecostalismo 5 - A Liturgia Neopentecostal

Neopentecostalismo 5 - A Liturgia Neopentecostal

 

Conferência teológica preparada pelo Prof . Isaltino Gomes Coelho Filho para a Faculdade Teológica Batista de Campinas, 16  de  abril de 2004

 

 

            Nesta palestra pretendo falar um pouco sobre a liturgia neopentecostal. O “um pouco” é que não irei esgotar o assunto. Isto é de uma obviedade acaciana. Seria uma pretensão muito grande de minha parte ou da parte de qualquer um. Na realidade, a questão litúrgica é um dos maiores focos de discussão e de dissensão no cenário evangélico. E é até difícil falar sobre uma liturgia como sendo a ortodoxa ou a correta. A multiplicidade de formas e de modelos é enorme. Há para todo tipo e todo gosto. Mas a liturgia neopentecostal merece ser analisada com olhos críticos porque embutidas em sua prática estão alguns pressupostos teológicos. Muitas igrejas adotam práticas litúrgicas sem sequer analisá-las. Jovens vão a um congresso, vêem algo, acham-no atraente, e trazem-no para sua igreja. O ambiente em que vivem é outro, a cultura de sua igreja é outra, há pressupostos doutrinários na prática, mas o copismo é muito forte em nosso meio, e as pessoas passam, principalmente os jovens, por cima de tudo isto. Assim surgem problemas nas igrejas. Nem sempre por vitória do tradicionalismo. Muitas vezes, por mera ignorância dos inovadores. E depois, com o choque, vem a falta de bom senso e a questão acaba extrapolando para divisões. Muitas igrejas se dividem por ninharia. Nem mesmo por doutrina. Mas deixemos isto de lado. Vamos ao que é nossa proposta.

 

Algumas dessas práticas litúrgicas são apenas uma maneira de uma comunidade expressar a sua fé, sem implicar em abraçar determinada doutrina, mas algumas delas implicam em assumir determinadas posições teológicas. É preciso analisar e considerar isto. Um modelo assumido por um grupo pentecostal ou neopentecostal não é errado simplesmente porque foi adotado por esses grupos. Mas se sua adoção implica em remover balizas doutrinárias torna-se necessário o espírito crítico e, conforme o caso, promover sua rejeição. Há doutrinas que são secundárias, apenas diferenciais de grupos denominacionais. Mas há doutrinas que são o cerne da fé cristã e que nunca podem ser minimizadas. A liturgia, que é a expressão da celebração da fé, não pode sacrificar o conteúdo da fé. Seria um contra-senso. Naquilo em que pontos centrais da fé cristã são afetados por práticas litúrgicas, estas devem ser recusadas.

 

            Quando era pastor em Manaus recebi no gabinete um diácono de uma denominação séria e respeitável, a Assembléia de Deus. Posso considerar suas doutrinas equivocadas, mas tenho que respeitar seu caráter sério. O irmão que me procurou saíra de lá e queria ir para uma igreja batista. Segundo ele, queria menos barulho e mais reflexão. No primeiro domingo foi a uma igreja batista e saiu de lá, como disse, horrorizado. Eis suas palavras: “Que horror! O grupo de louvor fazia mais barulho que toda a banda da Assembléia!”. É difícil, hoje, caracterizar uma determinada liturgia como sendo de uso específico de uma igreja tradicional ou de uma igreja renovada. Há igrejas de teologia tradicional e de liturgia barulhenta. Isto se deve ao fato de que as pessoas não estão se preocupando muito com o que crêem, mas em liberar suas emoções. E também porque a busca de resultados é muito grande. O certo não é mais o que é certo, mas o que funciona. E, se funcionou em um lugar, será adotado em muitos outros. Como somos ingênuos e superficiais!

 

            A liturgia tem muito a ver também com o estilo e a cultura da comunidade ou o estilo imposto pelo líder. E as pessoas se ajustam a ela porque aquele é seu ambiente cultural. Nem por tanto porque seja certo ou errado.  Pessoalmente, quero menos barulho e mais conteúdo. Numa frase de Bill Ichter: “Quero algo que mexa com meu coração e não com meus pés”. Mas esforçar-me-ei para não impor meu estilo.  Os dois lados, tanto os tradicionais como os barulhentos, são radicais neste ponto (e em outros, também). Querem impor seu estilo como o certo. Eu era um pastor de 25 anos, no interior de S. Paulo (e trinta anos depois, cá estou no interior de S. Paulo, de novo) e era orador de um congresso jovem. O líder de louvor (este título sempre me soou inadequado – eles lideram cânticos, não o louvor, porque o louvor é todo o culto) era desses manipuladores exóticos. Depois de esgotar todos seu arsenal de truques manipulativos, pôs os jovens para cantarem o conhecido corinho infantil, bem conhecido dos primários de nossas igrejas, “Três palavrinhas só eu aprendi de cor: Deus é amor, tralalalala”, e todos os jovens tinham que cantar fazendo gestos, acompanhando sua direção. Eu estava no meu terceiro ano de ministério, era cioso de minha posição pastoral, já era pai, estava acompanhado da minha esposa. Não queria fazer papel tão gaiato diante dela. E não gosto de fazer gestos. É meu estilo. Não iria violar meu jeito de ser para “criar um clima de descontração”, que era a finalidade daquele cântico, segundo declarou o animador de auditório. Mas eis que ele me viu sem fazer os gestos e sem cantar a letra tão infantil para um adulto, e me censurou de público: “Você, aí, não seja carnal! Faça como todo mundo, não endureça seu coração!”. É óbvio que não o levei a sério e fiquei, como se diz, “na minha”. Chegou a hora de pregar e fui para a frente, apresentado como sendo o orador daquela semana. O moço ficou desconcertado. Veio me pedir desculpas e eu as concedi, sem querer ser magnânimo. Realmente, cometeu uma falha. Pelo menos a reconheceu. Estigmatizou uma pessoa porque esta não era seu clone litúrgico. Por outro lado, já li em publicação evangélica alguém que escreveu, textualmente: “Deus não gosta de órgão!”. Eis aí alguém que sabe em minúcias o gosto de Deus. Não me parece que ele tenha dito qual seja a liturgia preferencial e que prefere piano a órgão.

 

            Mas deixem-me estabelecer logo por onde vou andar. Não me deterei em questões de varejo, mas nos aspectos teológicos que estão embutidos na prática litúrgica do movimento neopentecostal. Algumas dessas práticas estão presentes em igrejas de teologia conservadora. Chacrinha disse, certa vez, que “na televisão nada se cria, tudo se copia”. Entre os evangélicos também. O copismo e a ausência de senso analítico é enorme em nosso meio. Quando falta senso analítico, o risco de se resvalar para o ridículo é grande. Devemos sempre nos lembrar que práticas, gestos e símbolos expressam uma postura assumida. Ou doutrinária, ou cultural ou ideológica. Mas não vêm sós. Expressam o modo de crer ou de ver o mundo.

 

            Uma questão mais a se considerar. Nossa avaliação de culto é antropocêntrica. Tendemos a avaliá-lo positivamente se nele nos sentimos bem, se fizemos uma catarse, se fomos edificados, se alguma coisa boa nos aconteceu. Não avaliamos o culto considerando se o nome de Jesus foi pregado, se a salvação foi proclamada, se Deus foi posto em primeiro lugar. O bom culto, para muitos, é aquele em que nos sentimos bem. Pode ser que seja até o contrário. Talvez o bom culto seja aquele em que nos sentimos mal, em que fomos incomodados, aquele do qual saímos frustrados porque vimos nossos pecados, nossas falhas, e o Espírito nos inquietou. Por que o Espírito não é um massageador de egos. Ele é Deus e fala o que devemos ouvir, não o que nos faz bem.  Tenhamos estas questões em mente em nossa caminhada nesta palestra.

 

            Um problema dos mais sérios no neopentecostalismo é a ênfase que seus cultos dão em campanhas de cura, de prosperidade, de saúde, de revelação, etc. Sua liturgia é direcionada para isto. Este é seu carro chefe. Isto enche as igrejas, tanto que igrejas tradicionais que não conseguem deslanchar resvalam para esta prática, mas é um enfoque equivocado. A preocupação maior com esta atitude não é a glória de Deus, mas as necessidades humanas e estas sempre são focadas por uma ótica hedonista. Isto se vê de maneira muito clara no slogan de uma igreja neopentecostal: “Você nasceu para vencer”. É uma frase bonita, que até nos estimula na nossa luta diária, mas está teologicamente errada. Nós não nascemos para vencer. Nascemos para servir e glorificar a Deus. Nascemos para viver com Deus e para Deus. O alvo da nossa vida, como cristãos, deve ser Deus e não nós mesmos ou nossos projetos pessoais. Um cristão de verdade tem um projeto: glorificar a Deus em sua vida. A vitória vem por causa disto. E se for uma vida de sofrimento ou de revezes, ele não é um frustrado por isto. Cristo deve ser engrandecido em nossa vida seja de que maneira for. Um John Bunyan, uma Fanny Crosby, os mártires da igreja em geral, glorificaram a Deus em seus sofrimentos. E o que dizer do profeta Jeremias? Eles se viam a si mesmos como secundários e Deus como o prioritário. Mas a liturgia neopentecostal é elaborada para dar a sensação de vitória material e de prosperidade. Este é seu apelo: coisas. O bem-estar humano é o propósito da liturgia neopentecostal, apesar de toda a sua fraseologia sobre o poder de Deus.

 

A conseqüência teológica nesta perspectiva é que Deus existe para nos servir e cumprir uma agenda semanal que nos satisfaça e não para ser adorado e servido. O antropocentrismo do culto alcança aqui um paroxismo. Os chamados “fenômenos” ocupam o lugar de Deus. A preocupação é com “como a coisa parece” ou “como as coisas acontecem” e não com “o Ser em si”. Uma liturgia que se estrutura de modo a dar mais espaço às necessidades humanas do que ao caráter de Deus é perigosa e deve ser vista com reservas. A igreja não é um “Poupa-Tempo” [1]espiritual. É o conjunto de remidos pelo sangue de Cristo. O culto deve expressar a natureza espiritual da Igreja e seu relacionamento com Deus. Deus é mais que um provedor. É o Senhor. A liturgia de um culto deve enfatizar seu senhorio em todas as áreas da vida, não apenas como providenciador de necessidades que julgamos as mais importantes. A finalidade do culto é a glória de Deus e não a satisfação humana. Toda a vida espiritual passa a ser enfocada por este ângulo: os poderes espirituais estão ansiosos para nos servir. Dois escritores neopentecostais deixam isto bem claro, como vemos na citação a seguir: “Gloria Copeland e Charles Capps sugerem que pode haver entre 40.000 e 72.000 anjos designados para cada crente, apenas esperando para servir-nos” [2]. Se esta é a teologia do neopentecostalismo conhecido como Movimento da Fé, não é de se estranhar uma liturgia voltada para satisfação do homem.

 

Sabemos que muito da concepção litúrgica tem a ver com o conceito de Igreja que se nutre. No Novo Testamento Igreja nunca é um lugar ou um prédio, mas é sempre gente. No pensamento neopentecostal, Igreja é um lugar onde coisas acontecem. Vê-se isto num slogan da Universal, que de tão criticado, foi substituído: “Igreja Universal, onde o milagre é uma coisa natural”. Ora, se é natural não é milagre. Mas nesta declaração, a ênfase também era em eventos, não numa pessoa, o Ser divino. As pessoas se reuniam num culto não para adorar a Deus, mas para buscar sinais e prodígios. A liturgia era numa direção totalmente horizontal, para servir às pessoas. E o culto não era encontro com o Sagrado, com o Totalmente Outro, mas xamanismo puro.

 

Se a Igreja é o povo de Deus, o culto deve ser a reunião do povo de Deus para ouvir a voz de Deus e reafirmar seu compromisso com ele e seus laços fraternos como seu povo. Aqui reside outro equívoco na liturgia neopentecostal. O aspecto de povo deve ser enfatizado no culto. Mas a sua liturgia é centralizadora, calcada nos líderes. O conceito de “sacerdócio universal de todos os salvos” inexiste. O pastor ou bispo (ou episcopesa, por favor não usem “bispa”) ou apóstolo é um clérigo, uma pessoa que tem o munus espiritual. Só ele quebra maldições, só ele tem autoridade espiritual, só ele tem a oração forte. Os crentes são meros assistentes e a liderança litúrgica é o sacerdócio atuante.  Geralmente, os compromissos enfatizados não são os da comunidade vivendo no mundo, mas o compromisso de Deus para conosco. O compromisso da comunidade, geralmente, é dimensionado em termos de contribuição financeira. E de acatamento da liderança eclesiástica. Porque a liturgia neopentecostal traz também este aspecto. Ela reforça o domínio do clero sobre o laicato. Estes termos não devem existir na teologia cristã conservadora, mas existem na prática neopentecostal. Na teologia cristã conservadora, todos somos leigos, porque todos somos povo. O pastor é povo de Deus. E todos somos sacerdotes, porque todos temos acesso direto a Deus.

 

Pensemos um pouco em pregação. Ela faz parte da liturgia cristã. Não é apenas um discurso. É um ato do culto. Sempre se entendeu que pregar é anunciar as verdades de Deus. Resumindo a citação de Crane sobre a definição de Phillips, naquela que é a mais conhecida obra de Homilética em português: “A pregação é a comunicação da verdade por um homem aos homens” [3].  Partindo daqui, entendemos que pregar é comunicar a verdade, e assim definimos qual é o material da pregação. Se é a comunicação da verdade, a pregação deve comunicar a Bíblia. Ela é a verdade de Deus. O culto deve fazer a Bíblia brilhar. Culto sem Bíblia é bastante problemático. O culto neopentecostal é carente de exegese bíblica. As pregações são cheias de “confissões positivas” do tipo: "Você pode e deve prosperar, use sua fé e prospere, hoje Jesus vai te curar, Deus vai mudar sua vida...". Uma episcopesa (ou episcopisa), que o pessoal cisma de chamar de “bispa” (que horror!), ignorando a língua portuguesa, gritava lemas de auto-ajuda pela televisão, em um programa de seu grupo. O clima era de histeria e de lavagem cerebral, pela técnica de repetição de frases curtas, não um clima de ensino. O que ela dizia estava mais para Lair Ribeiro que para Jesus Cristo. Mais uma vez, surge a questão antropocêntrica, só que agora na pregação. É preciso dizer algo que agrade as massas e as mantenha cativas. Não há, na maioria destas igrejas, uma exposição das Escrituras capaz de ensinar os ouvintes sobre o significado da Bíblia. Os ouvintes não precisam crescer e amadurecer, apenas consumir. Isto faz com que quase sempre a palavra do líder tenha peso de Palavra de Deus e, o que ele declara passa a ser seguido como regra de fé e prática. Desta maneira, como já acentuei antes, a liturgia neopentecostal serve para legitimar e reforçar o domínio do pastor sobre o rebanho. Além de ser o quebrador das maldições e o proferidor das bênçãos, o homem do acesso direto a Deus, o pastor domina o rebanho. Já vimos isto em momentos de eleições, com o voto de cabresto, em certas igrejas neopentecostais. Assim, o culto é centrado no pastor ou na episcopesa. O líder é um sacerdote, uma pessoa incomum, acima das outras.

 

Isto é tão real que nas igrejas do chamado neopentecostalismo autônomo[4] os rachas são efetuados por pastores, nunca pelo rebanho. Este não questiona. Na realidade, nem mesmo tem acesso às instâncias de poder eclesiástico. A própria pregação neopentecostal transcorre pela via hermenêutica subjetiva da “iluminação” do pregador. Vimos citações de pregadores neopentecostais, na palestra sobre a cristologia. Ali se pode ver como a Bíblia é usada. Ela não é central no culto. É periférica. O central é a palavra do pastor ou da episcopesa. Ora, em minha Igreja, se eu reinterpretar a Bíblia e usá-la para apoiar minhas posições pessoais, em discordância do que a comunidade entende ser a ortodoxia bíblica, serei deposto do pastorado. Um pastor tradicional deve se subordinar à Bíblia, e uma igreja tradicional avaliará as mensagens que recebe pelo grau de biblicidade que elas apresentem. A liturgia não pode ser usada para subsidiar quebra doutrinária.

 

A ênfase na palavra do pastor aliada ao seu papel litúrgico de sacerdote inquestionável acaba criando uma “tradição oral”, no neopentecostalismo. Na Igreja Católica, o papa é infalível quando se pronuncia em nome da Igreja. No neopentecostalismo, a liturgia vem para reforçar o domínio doutrinário do pastor, tornando-o infalível. Ele não pode ser questionado. Remeto-os ao livro de Paulo Romeiro, Supercrentes [5]. Ele mostra que, de posse de declarações, gravadas em vídeo, de Valnice Milhomens Coelho, tentou dialogar com ela. Ela negava que tinha dito o que ele afirmava, dizia que fora mal interpretada ou se recusava a responder aos contatos por ele procurados. Neopentecostais não aceitam ser questionados. Deus fala por eles. No culto, a voz deles não é uma voz humana interpretando a Palavra de Deus, mas é Deus mesmo falando.

 

Na primeira palestra, comentei que devemos a Raymond Boatright, um dos introdutores do neopentecostalismo no Brasil, o uso de instrumentos musicais que só se empregavam em shows, como guitarras elétricas e instrumentos de sopro, bem como o cântico de corinhos no estilo country. A liturgia se tornou mais popular, menos anglo-saxã, apelando para estilos musicais brasileiros. Assim chegamos a ter a bateria no culto. Em algumas igrejas o volume é tão alto, que nada mais se ouve. Preguei para um auditório de aproximadamente 1.200 pessoas, em uma igreja em Manaus. Na hora dos cânticos os instrumentos abafavam as vozes de mais de mil pessoas. Geralmente os cânticos são entregues a jovens, que apreciam barulho, e são apoiados por pessoas que associam volume de som com qualidade da fé. A liturgia neopentecostal apela muito para volume elevado. Mas isto não é um privilégio seu nem pode ser caracterizado como prática exclusivamente sua. O problema reside no fato de que se associou barulho e gestual com espiritualidade. Esta é a questão. Esta postura simplifica a vida espiritual, que de profunda e brotando de dentro, se tornou em questão cultual e litúrgica. A forma triunfou sobre o conteúdo. Este é um perigo em qualquer dos campos, seja o neopentecostal, o pentecostal, ou o tradicional. O Pr. Marcelo Rossi também faz barulho e não é neopentecostal. Mas no neopentecostalismo tal idéia é mais difundida. Barulho não produz santidade nem leva Deus a agir.

 

Esta prática reflete uma atitude interior encoberta pela liturgia. As pessoas não querem pensar nem aprender. Querem externar suas emoções. E também há um outro aspecto, cultural, segundo entendo: a ditadura do som. As pessoas não conseguem ficar em silêncio. Vai-se a um churrasco, a uma festa, a um jantar, e há sempre um aparelho de som com uma música barulhenta. Não se pode conversar, a não ser aos gritos. Na Igreja, o prelúdio foi desvirtuado e é uma cortina musical para abafar a conversa das pessoas, quase nunca uma ocasião para meditar, orar, ler a Bíblia e colocar-se em atitude de oração. Mas há mais a considerar. Uma das coisas que se aprende em Publicidade é sobre o uso da música para vender um produto. Num restaurante elegante, caro, a música é suave e tranqüilizante. O interesse é que as pessoas demorem e assim consumam mais. A garrafa de vinho mais popular está por R$ 50,00. Para que pressa? Num supermercado, a música é barulhenta, agitada, para evitar que as pessoas pensem. Elas devem agir rapidamente, sem tempo para efetuar contas ou para avaliar se precisam mesmo daquele produto. A liturgia neopentecostal é para as pessoas agirem, se movimentarem, nunca pensarem detidamente nem refletirem. Já viram instantes de oração silenciosa numa igreja neopentecostal? As pessoas são condicionadas para obedecer e tomar as decisões de acordo com o que lhes é servido. Elas são consumidoras, e nunca refletidoras. A liturgia é dinâmica e agitada com este fim. Meu receio é que isto produza uma fé superficial, sem aprofundamento.

 

Preciso falar sobre a letra dos cânticos, ainda que não detidamente. Geralmente ela é expressa em linguagem genérica, mística, sem abordar as verdades fundamentais da teologia cristã. Anos atrás apresentei à Ordem dos Pastores Batistas do Distrito Federal uma palestra sob o título “A teologia dos corinhos”. Infelizmente a perdi. Preciso e pretendo refazê-la. O que cantamos? Se espremermos a maioria dos corinhos não teremos suco para uma colher de sopa. Como a liturgia é agitada, para envolver a pessoa e evitar que ela reflita, as letras devem ser as mais fáceis possíveis. Os verbos mais usados são “adorar, entronizar, ministrar, contemplar, cantar, render”. As expressões mais comuns são “ministrar louvor, tocar as vestes” e, agora, não sei porque, “mergulhar nos teus rios”, “andar nos teus rios”, “teus rios”. Um cântico, inclusive, diz “faz-me mergulhar em teus rios”. Que rios são esses? O pessoal anda com muita sede... Há o “voar nas asas do Espírito”. O que isto significa? Há uma internalização e misticização da fé cristã. Ela se transforma em meras sensações e aspirações místicas irrealizáveis. O relacionamento com Deus se torna semelhante a uma viagem interna, mística. Aliás, uma campanha de evangelização de jovens tinha como slogan esta frase: “Faça uma viagem com Jesus”. Se o que se pretendia era pegar carona nas viagens com drogas para alcançar seus usuários para o evangelho, embora bem intencionada, a proposta não foi muito feliz. Jesus foi colocado em pé de igualdade com as drogas que há por aí.

 

Algumas vezes a linguagem é absolutamente cifrada. Canta-se muito a respeito do monte Sião, mas o que ele significa para o cristão? Canta-se Jerusalém como se ela fosse uma cidade santa para nós. Pode ser que para os judeus e para os muçulmanos ela o seja, mas para o cristão, Jerusalém é “chamada Sodoma e Egito, onde também foi crucificado o seu Senhor” (Ap 11.8). No cristianismo não existe terra santa nem lugar santo nem monte santo. Deus é santo e seu povo é santo, mas nenhuma cidade terrena em particular nem qualquer acidente geográfico o são. O rasgamento do véu do templo quando da morte de Jesus significa isto: Deus foi-se embora de Jerusalém. Ele não mora mais lá. Mora no crente, pelo Espírito Santo. Canta-se mais o Antigo Testamento em geral e os Salmos, em particular, que o Novo Testamento. Há gente que até se intitula de “levita” porque toca algum instrumento ou faz parte de um “grupo de louvor”.  Devemos reconstruir tabernáculos portáteis para que eles desmontem, carreguem e montem, uma das funções dos levitas. E, na ausência dos recabitas, devem cortar lenha e carregar água para o templo. Há uma fixação na liturgia neopentecostal com o sacerdotalismo do Antigo Testamento. E muitas de nossas igrejas estão copiando isto.

 

Sei que a linguagem musical é poética e na poesia a conotação é mais forte que a denotação. Mas os grandes temas da fé não são mencionados. A salvação, a cruz, a redenção, justificação, etc. Houve um hino oficial de uma campanha sobre Gideão que era particularmente curioso. Gideão era chamado de “cabriteiro” e associado com um tipo de crente que não contribuía com o melhor de suas posses. A pobreza poética é enorme. Alguns compositores são bem intencionados, são sérios, do ponto de vista espiritual. Mas deveriam pedir ajuda a alguém que entenda de teologia e também de português. A língua de Camões sofre... E Machado de Assis deve se revirar na sepultura...

 

Um problema não menos grave é que muito da liturgia neopentecostal é direcionada para a cobrança de oferta dos fiéis (quase sempre prometendo a estes soluções da parte de Deus). Isto tem dado a estes cultos um aspecto mercantilista e explorador. Transforma Deus de um Ser Totalmente Santo num funcionário corrupto, que funciona na base de propinas. Em latim, isto se chama do ut des [6]. Uma troca de favores. Em um desses cultos, um ex-aluno meu que ali participava para fazer um trabalho de Seitas, contou sete momentos de levantamentos de ofertas. Num mesmo culto! As igrejas vivem de dízimos e ofertas, mas o levantamento destes deve obedecer a critérios bíblicos e deve haver uma administração transparente e uma prestação pública de contas. Devem ser um gesto de amor para com Deus e devem ser entregues como ato de culto. Não podem ser uma taxa para obter favores divinos nem podem ser extorquidos.

 

Alguém dirá que sabe de muita gente que se converteu em cultos assim e que foi edificada em liturgia assim. Às vezes, o próprio contra-argumentador. Reconheço ser assim, mas não é este o ponto. Conheci um homem que fez uma decisão por Cristo numa igreja batista, em Belém, depois abandonou a Igreja, e voltou à vida antiga. Era viciado em drogas. Foi comprar droga de um antigo fornecedor, que era pai-de-santo. Quando ele chegou, o pai-de-santo incorporou uma entidade que o mandou ir embora porque ele não era mais de lá. Pertencia ao outro lado. Um caso estranho de alguém repreendido por um demônio e que voltou para o evangelho por causa desta bronca. Isto não torna correto o uso de drogas nem o ouvir entidades malignas para se firmar na fé. O que estou argumentando é que há pontos litúrgicos que trazem embutidos em sua prática alguns pressupostos teológicos equivocados. E quem gosta de coisas certas e bem feitas, despreza atalhos, e segue pelo caminho correto.

 

A liturgia pode ser alegre. Não deve ser macambúzia. Um de meus pontos de filosofia de ministério, o segundo, diz: “A Igreja celebra a sua fé sem rigidez, mas sem artificialismo”. Nem missa nem forró. Nem canto fúnebre (embora muitos gostem dele) nem rap. Bom senso nunca matou ninguém. E doutrina correta não faz mal a Igreja alguma. E doutrina não é antônimo de vida e espiritualidade.

 

Uma palavra final. Muitos pastores se sentem incomodados no exercício de seu ministério pastoral. Por algum motivo, sua Igreja não cresce. De repente ele vê uma que está crescendo. Busca logo o método, sem muita consideração com o restante. E na ânsia de ver seu ministério avançar, comete alguns atropelos. Minha Igreja tem crescido, pela graça de Deus. Não é chute nem vontade, mas estatística. Mais de dois terços de sua membresia tem menos de cinco anos na Igreja. Estamos no processo de construção de um templo para 1.500 pessoas. Muitos me perguntam qual o método. Sempre digo que métodos não são tão relevantes como se pensa. O que conta são atitudes. Atitudes de minha parte, que assumi, e atitudes da parte da Igreja, que ela assumiu. Nossa metodologia serve para nós, uma igreja urbana num bairro de classe média alta numa cidade rica e culta. E o pastor titular tem um jeito que a Igreja aceitou. Somando tudo isto, temos jeitão não servirá para muitas outras igrejas. Quando falo em congressos e retiros de pastores sobre o assunto, digo “não nos copiem”. Busquem seu próprio caminho. A imitação tem feito muitas igrejas caminharem por aventuras litúrgicas e eclesiológicas. O fim destas experiências pode ser como a vida de Saul: com boa iniciativa, mas com má acabativa. Não copiem. Não sejam acríticos. Vejam o que está por trás da prática litúrgica. Cuidado com atalhos. Como diz o Dr. Hilmar Furstenau, do Seminário Teológico Batista do Paraná, e que tive o privilégio de ter como proefssor no mestrado em S. Paulo: “atalho dá trabalho”.

 

Que tipo de culto advogo? Um em que as pessoas sejam instrumentos, e não atores. Que o foco seja direcionado para Deus e não para pessoas. O pregador, os solistas, os conjuntos e todos os outros participantes não são artistas. São crentes que devem dizer como o Batista: “convém que ele cresça e que eu diminua”. Sem estrelismo e sem manipulação. Que nos aproxime de Deus, que nos faça compreender as verdades da sua Palavra, que mude nosso caráter, que produza santidade. Que impulsione ao serviço. Que constranja o adorador a uma vida mais dedicada. Não é a forma que mais me preocupa. É o propósito. Mas em termos de forma, que seja culto que edifique a todos os segmentos da Igreja, e não apenas satisfaça à estética de um grupinho que tem o domínio do culto.  Voltando a Bill Ichter: “Quero algo que mexa com meu coração e não com meus pés”.



[1] Instituição em Campinas que visa eliminar os trâmites burocráticos para tirar documentos.

[2] ANKERBERG, John e WALDON, John.  Os Fatos Sobre O Movimento da Fé. Porto Alegre: Chamada da Meia-Noite, 1996, p. 63.

[3] CRANE,  James. O Sermão Eficaz. Rio de Janeiro: Juerp, 1989, p. 16.

[4] Veja este conceito, na primeira palestra.

[5] ROMEIRO, Paulo. Supercrentes. S. Paulo: Mundo Cristão, 1994.

[6] Expressão latina que significa “dou para que dês”. Equivale a “toma lá, dá cá” ou “uma mão lava a outra”.

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